#aArteNasTrincheiras
A instrumentalização e o uso político das artes empobrece a Cultura
Por Flávio Villar Fernandes (compositor erudito) e Mariella Augusta (contista e pesquisadora)
Há muito, há mais de um século, a arte, talvez sobretudo a música, tem vivido um apartheid. Separada em teatros ou favelas, estádios ou botecos, universitários ou proletários, a música toca sem tocar porque virou uma coisa ou outra, vestiu um uniforme e passou a cumprir uma função. As etiquetas que costumam dar o selo dessa utilidade são colocadas pelos bons, tornando a música ou intragável ou uma eterna repetição.
É preciso tomar cuidado com os bons, pois agora eles existem. Para ser bom, basta ter um lado para apoiar e para ser apoiado sob a chuva ou sob o sol. Nos dias de hoje, os bons tomaram partido em relação à arte erudita, quer para dizer que ela não presta quer para dizer que somente ela presta. E foi assim que divorciaram o erudito do popular.
De um lado, os bons, ressentidos por tanta bondade, querem dizer que o popular é o que o povo faz – e o povo é sempre bom (bom como eles). Esses, aborrecidos com a erudição, acusam-na de oprimir – oprimir pela beleza. Os bons da devoção, por sua vez, dizem que a erudição é aquilo para onde devemos rumar com esforço, como A Hard Days Night, e não aquilo que deveríamos fruir ou fazer como que naturalmente, como coisa do homem.
Quanto mais limitação, mais uma obra se populariza. Ocorre que os bons desconstruídos querem elevar tais limitações, enquanto os da sacristia precisam meter o eterno em todo o temporal. Para esses, o novo tem de ser velho, e para aqueles, o velho, se não morreu ainda, vai ter de ser enterrado vivo. Uns e outros querem eliminar ou os valores, ou as rupturas, ou a gratuidade que mora em todas as coisas. Tudo porque não podem suportar a arte desinteressada ou um artista sem papel.
Um dos problemas para uma arte mais elevada é a busca pela adequação a um procedimento, a algum gênero ou ao regionalismo, pois estabelece fronteiras que a erudição não conhece ou, ao menos, não deveria conhecer. E os bons civilizacionais não poderiam ter a coragem de dizer que tais fronteiras não acabem por diminuir a importância das posses, ainda que essa subvalorização possa conter um grau de beleza.
Vale lembrar que a beleza não é privilégio do complexo. Determinadas extravagâncias, impopulares porque desagradáveis, que a possibilidade de liberdade deu a certos músicos eruditos, e que tanto agradam aos bons do pão, são profusas em feiura mesmo. Uma feiura que serve para romper grilhões, dizem. Nesse caso, admitem uma despreocupação com a popularidade e uma preocupação com a finalidade, o que deveria, ao menos em tese, ser estranho ao que define a erudição. Por ironia, depois desse atentado, choram a morte que eles mesmos promoveram com suas músicas que de tão complexas ficam inaudíveis.
Já vai ficando tarde para lembrar que, em se tratando de arte, há dois usos frequentes para a palavra “popular”: aquele que remete ao folclore e aquele que remete ao consumo em massa. As características de um povo, apreendidas por sua cultura, não prejudicam o erudito. Na verdade, muitas obras de alta cultura sabem a certos nacionalismos como as polonaises de Chopin sem que isso as restrinjam. Muito ao contrário, pois o gênio romântico fez o Vístula correr pelo universal.
Por seu turno, o popular feito para as massas pode mesmo chegar à anulação da arte a que se candidata. Como é o caso do rap e do funk carioca, pois enquanto um é uma mensagem, lembrando mais os cantos de guerra, o outro é apenas uma dança, apesar de, muitas vezes, possuir mais timbres novos que a maioria dos concertos atuais, como por exemplo certas manipulações eletroacústicas. Nesses dois eventos sonoros, os quais não podemos chamar de música, fica mais que evidente como a utilidade exclui qualquer fumo de erudição.
Aqui, vale um parêntese: é verdade que, no âmbito da erudição, há diversos processamentos de áudio que vão desde pesadas sínteses aditivas até a riquíssimas transformações eletroacústicas. Ocorre, porém, que esses procedimentos são, propositalmente, feitos de modo abusivo, a ponto de aniquilar com ao menos um dos três elementos da música – deixando também de poder atender pelo nome da mais etérea das artes.
Com esse último parágrafo, os bons que querem cancelar o “eurocentrismo” de Beethoven sentirão aqui, em toda a sua pureza, o veneno do preconceito. Já os bons da transcendência, por seu turno, vibrarão em suas caixinhas do século XIX, das quais o próximo parágrafo, constituído exclusivamente por perguntas, pretende desalojá-los.
O que a manutenção das orquestras, custeadas pelo Estado, que por sua vez é custeado pelo povo, faz pela evolução da música erudita? Que erudição é essa que parou no tempo e financia a reprodução eterna das mesmas obras, nos concertos e nas gravações? O que sustenta os velhos espetáculos, senão o fato de ser um evento social ou a mais caras das museologias?
Vale dizer que o popular é aquilo que se popularizou. E uma obra se populariza pela sua capacidade de agradar no seu tempo e de permanecer. Daí a existência de clássicos. Sem a absorção do espírito do tempo, mais do que sem aquele penoso e falso caminho que levaria à percepção da erudição, a alta cultura nunca mais conseguirá produzir um clássico.
Proteger o artista e desproteger a arte, não parece ter sido um bom negócio. O trabalhador deveria ser definido pelo seu trabalho – ou neste caso deveríamos dizer obra? A compaixão e a justiça social ou a justiça dos céus podem não ter nada a ver com a arte. Onde os bons vão colocar o Sr. Charlus? No pelotão de fuzilamento ou no inferno? Ou por que razão enigmática os Racionais foram parar no cânone, ao lado de Camões, num dos vestibulares mais prestigiados do país?
Bancaram-se muitos diplomas e muitas especialistas para que vendessem mentiras embaladas para presente. Como na velha cama de Procusto, a verdade é coberta e descoberta conforme os desejos e os ideais daquele que tem a chance de a proferir – os mesmos que não virão, por desprezo ou por covardia, a esta tribuna defenderem suas indefensáveis profissões de fé. Mas a verdade é que os conservadores estão quase a dizer que a música erudita volte para as catacumbas dos cantos gregorianos, e os progressistas querem que ela se distancie do comércio a ponto de dar a seus inimigos o argumento do fim da beleza.
A arte erudita está morrendo, e o popular, dentro ou fora dela, também. Apesar de todas as teorias desenvolvidas no seio das hostes e das ordens que se ergueram para fazer o bem. Falar é fácil, ainda mais para os seus prosélitos, pois dispensa a coragem para diagnosticar o óbvio que a ninguém interessa. Falar com crítica já é mais difícil, mais difícil ainda é fazer – quem não sabe, nem ensinar deveria. Contudo, tem de ser feito, mesmo que sob o perigo de toda essa bondade que, de repente, cobriu o mundo.
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Mariella Augusta
https://substack.com/@mariellaaugusta






Concordo 100%.
Na minha ignorância tento entender quando isso começou. Parece que foi aos poucos e não percebemos até que fosse tarde demais.