#AMetamorfoseDaEsquerda
Por que o progressismo desaprendeu a ter esperança?
Vivi uma época em que as pessoas discutiam política na mesa de bar. Eu tinha alguns amigos petistas. Meu professor de redação da faculdade fazia uma careta cômica quando eu dizia que votaria em Serra em vez de Lula, na eleição de 2002. Hoje, as famílias brigam por políticos. O que antes era uma discussão sobre como distribuir a renda de maneira mais eficiente virou uma guerra de sinalização de valores. O mundo mudou de maneira estranha e indecifrável.
Na época da minha juventude, os gays se mudavam para cidades como São Francisco e Nova York. Muitos deles fugiam de países comunistas e islâmicos, onde eram perseguidos por sua sexualidade, para desfrutar da liberdade das capitais americanas. Hoje, a homossexualidade não é mais associada ao cosmopolitismo capitalista dos EUA, mas, estranhamente, à esquerda revolucionária ou ao conservadorismo islâmico, correntes que tanto perseguiram gays ao longo da história.
A esquerda deixou de ser progressista no sentido de promover o progresso da vida do proletariado. Tornou-se outra coisa que ninguém sabe exatamente o que é. Uma mistura de discursos de puro ressentimento contra quase tudo: da masculinidade à miscigenação racial, passando pelo humor. Colunas de jornal voltadas ao público feminino são escritas a favor de homens efeminados e contra os chamados “héterotops”. Teses de ciências sociais argumentam que a miscigenação brasileira é prova do racismo estrutural do país. Comediantes são cancelados e acusados de crimes porque algumas pessoas — que não são, claro, o público desses artistas — consideram seus shows “ofensivos”. Afinal, o que aconteceu?
Minha tese é que a esquerda atual perdeu a capacidade de sonhar. O que é curioso, pois sempre associei a esquerda a pessoas românticas e sonhadoras, que queriam fazer do mundo um lugar melhor por meio da política. Acredito que, de tanto negar dialeticamente a religião (o comunismo sempre foi um culto fechado em si mesmo) e o próprio poder transformador do dinheiro — mudando seu discurso, com o tempo, de “como distribuir a riqueza” para “como odiar a riqueza” —, a esquerda acabou perdendo também, de maneira análoga, a fé.
Fé é algo que vai além da religião. É a capacidade de crer em algo que ainda não somos capazes de enxergar. Fé é, portanto, fundamental para sonharmos. Acreditar que o mundo pode ser melhor é um discurso que desapareceu da esquerda política. Tudo o que restou para os esquerdistas atuais foi antagonizar. Os alvos são inúmeros: os bem-sucedidos, os ricos, os héteros, os miscigenados, os casados, os religiosos, os artistas não alinhados ideologicamente — ou seja, todos aqueles cuja visão de mundo coincide com a dos partidários.
No mundo todo, a esquerda parece ter abandonado sua função histórica de projetar um futuro melhor, restando-lhe apenas a proposta de impedir um presente pior. Um dia, Lula fez campanha com o lema “a esperança venceu o medo”. Hoje a campanha petista já não vende esperanças: sua principal bandeira é impedir a ascensão da extrema direita, do fascismo ou, mais recentemente, do bolsonarismo.
O mesmo processo ocorreu nos Estados Unidos. No passado, Obama venceu com seu famoso bordão “Yes, we can”. Atualmente, quem vende o sonho de tornar a América grande novamente é o MAGA, enquanto os democratas se limitaram a propagar o temor do retorno de Trump durante a campanha de Kamala.
Tudo indica que o histórico analfabetismo religioso da esquerda tornou-se um problema político. As comunidades religiosas praticam o sonhar, a imaginação e a esperança há muito mais tempo do que as instituições políticas. Além disso, a política secular jamais conseguiu replicar — ainda que tenha tentado — as capacidades emocionais que as religiões levaram milênios para desenvolver. Não é à toa que estamos assistindo à eleição de candidatos muçulmanos por partidos de esquerda em capitais da Europa e dos EUA.
Diferentemente dos ateus históricos da esquerda, os islâmicos democratas e trabalhistas não apenas têm bom desempenho eleitoral entre os imigrantes, como também já compreenderam algo que por muito tempo passou longe do radar dos progressistas: que, ao se fazer política, a fé não é mero luxo, mas um elemento fundamental para conquistar corações e mentes.
Nenhuma política se sustenta apenas pelo medo, e sociedades não se organizam em torno da negação. Se a esquerda quiser voltar a ser uma força histórica relevante, precisará reaprender aquilo que sempre a distinguiu: a arte de imaginar futuros, de oferecer sentido e de falar ao desejo humano.




Pessoalmente, não gosto dessa mistura política e religião. Infelizmente, na vida real, é assim que a banda toca.
O próprio PT teve seu nascimento “ ligado” a setores da Igreja, além dos sindicatos, rs.
Faltam projetos e discernimento da população no processo.
Gostei do texto!
A esquerda se apequenou. Obrigado pela análise.