#Autoritarismo
Thiago Amparo quer criminalizar as opiniões divergentes
A retórica de Thiago Amparo é expressão de autoritarismo intelectual, e o texto que publicou na Folha o demonstra com precisão involuntária.
Ele pressupõe que, se o direito brasileiro permite a autoidentificação de gênero, a questão ontológica do que é uma mulher está resolvida. Não, não está. E dar opiniões ontológicas a respeito de uma questão controversa jamais pode ser crime.
A lei positiva, em certo sentido, é uma ficção normativa, não uma descrição da natureza. Usar o direito positivo para calar um debate filosófico e biológico é exatamente o que se chama de autoritarismo — e o argumento não precisa do adjetivo porque a estrutura já o evidencia.
Com toda a arrogância desenvergonhada, Thiago Amparo afirma que definir mulher pela materialidade do corpo “ignora décadas de literatura científica interdisciplinar”. Um besteirol sem tamanho.
Na verdade, ele apela para a literatura que provém majoritariamente das Ciências Humanas. Em alguns pressupostos teóricos, gênero é construção social. Porém a Biologia Evolutiva, que descreve o sexo como categoria estrutural de dimorfismo reprodutivo, não integra esse pretenso consenso e trabalha com outro objeto. Sem contar a antropologia filosófica, que nem entrarei no mérito.
Logo, ele funde os dois campos para forjar uma unanimidade científica que só existe na cabeça autoritária dele. E, com ela, pretende não só deslegitimar o adversário antes de respondê-lo.
O passo mais grave é a loucura jurídica. Para criminalizar a posição de Magnoli, ele precisa que Magnoli defina Erika Hilton como homem biológico com intenção de retirar-lhe a dignidade. A possibilidade de que Magnoli o faça por adesão ao realismo biológico, sem qualquer dolo, não entra no texto.
Precisaria entrar, porque mudaria o argumento. Thiago prefere atribuir má-fé ao adversário a enfrentar as coisas no espaço das razões. Esse é o método: presumir a intenção criminosa para dispensar a refutação racional.
Autoritários são assim: não querem vencer o argumento. Afinal, é mais fácil pegar o atalho e acionar o Estado para proibir que ele seja dito.



