#ChoqueDeCivilizações
A obra de Samuel Huntington ainda é relevante nessa época de polarização ideológica e confusões culturais?
No final do século XX, quando o mundo respirava aliviado após o colapso da Guerra Fria, Samuel P. Huntington lançou sua hipótese provocadora de que o futuro dos conflitos não seria ideológico nem econômico, mas cultural, traçando linhas de divisão entre grandes “civilizações” marcadas por valores, tradições e identidades profundas. Sua obra incendiou debates e marcou uma época, reagindo à ideia otimista de que o fim dos blocos ideológicos significaria o fim dos grandes conflitos humanos.

Obviamente as críticas não tardaram. Muitos estudiosos contestam a forma como Huntington concebe civilizações como entidades monolíticas e estanques, alegando que tal visão simplifica demais a complexidade cultural do mundo real — um mosaico de identidades internas, sobrepostas e em constante transformação. Edward Said e outros críticos acusaram essa abordagem de alimentar estereótipos e ignorar as interdependências culturais que atravessam fronteiras, reduzindo história e sociedade a categorias rígidas e artificiais. Embora essas críticas sejam contundentes, elas também ajudaram a alimentar um debate mais amplo sobre como as culturas interagem, convivem e se confrontam em contextos de poder global.
E este é o impacto da obra de Huntington: deslocar o foco dos estudiosos e analistas para a dimensão cultural das relações internacionais, ainda que muitos rejeitem suas conclusões. Apesar da inexistência de um choque civilizacional universal e inevitável, a noção de que culturas e valores influenciam alianças, rivalidades e percepções globais continua presente nas narrativas políticas e nos imaginários coletivos, especialmente em um mundo que testemunha o ressurgimento de nacionalismos e identitarismos culturais nas últimas décadas.
O livro de Huntington não apenas abriu uma nova perspectiva, ela definiu um espaço para que os fatores culturais fossem levados em consideração na análise das relações internacionais. Sua tese persiste como um ponto de referência para quem procura entender como diferenças culturais e religiosas podem interagir com poder e política no mundo contemporâneo, lembrando que, mais do que profecias asseguradas, são os discursos gerados em torno das ideias que frequentemente moldam a forma como vemos o mundo.
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Só depois de escrever esse texto, descobri que o livro de Huntington está fora de catálogo no Brasil. Mas ainda há um livro interessante que Huntington publicou junto com o professor Lawrence Harrison, de Harvard, em 2000, chamado A Cultura importa, onde exploram o papel dos valores culturais no progresso humano, tentando responder por que alguns países e sociedades alcançam maior desenvolvimento econômico, social e político do que outros.


