#Cinema: Hamlet – a beleza que nasce do sacrifício
O filme de Chloé Zhao é uma das mais belas homenagens à Arte
Uma das críticas mais recorrentes a Hamnet, de Chloé Zhao, é de ser um filme manipulador de emoções. Ninguém sai ileso daquelas 2 horas e pouco de “intensa tragédia sobre o luto e a perda”, como classificou um resenhista do The Guardian.
Mas a diretora Chloé Zhao também sabe manipular a arte a seu favor. Então, o luto e a perda que nos emociona e nos turva a visão em diversos momentos – sobretudo nas exuberantes cenas finais –, acabam se reconfigurando. Deixam de ser o centro emocional para se tornar um fundo existencial em que se elaborara não apenas uma forma de expressar a dor, mas de compreender o que ela pode revelar.
E o que primeiro se revela é a maravilhosa atuação de Jessie Buckley. Começa como uma Agnes Hathaway humilde, meio enigmática, mas que vai se expandindo até transbordar na tela. Aos entusiastas da Inteligência Artificial – e também aos apocalípticos que acham que profissão de ator irá acabar –, Buckley demonstra que nenhum algoritmo pode substitui aquela presença luminosa que só os grandes artistas conseguem irradiar. Um exemplo daquela encenação viva do espírito humano que falava Stanislavski.
O mesmo podemos dizer de Paul Mescal, embora por motivos opostos. Ele vive um Shakespeare introspectivo, que sofre profundamente a incompreensão do artista, que vive em luta contra si mesmo, sempre questionando “se é mais nobre sofrer na alma as pedradas e flechadas do destino feroz, ou pegar em armas contra o mar de angústias”. Porque, “tudo que é forçado deturpa o intuito da representação, cuja finalidade, em sua origem e agora, era, e é, exibir um espelho à natureza; mostrar à virtude sua própria expressão”.
Jessie Buckley, Paul Mescal e, sobretudo, as crianças, Jacobi Jupe (Hamnet), Bodhi Rae Breathnach (Susanna) e Olivia Lynes (Judith), nos fazem, enfim, compreender o conceito de arte defendido por James Joyce: “disposição humana da matéria sensível e inteligível para uma finalidade estética”.
No filme de Chloé Zhao, a arte aparece como contemplação, e não como uma fuga como pretendeu o resenhista do The Guardian. Está mais para uma forma de olhar para o abismo da existência sem ser consumido. Porque a arte não nasce como desabafo emocional nem como instrumento de persuasão moral, mas como disposição rigorosa da experiência humana para compor uma narrativa memorável e esteticamente bela.
A arte, nesse sentido, surge menos como consolação e mais como tarefa. Criar não aparece como gesto espontâneo ou iluminado, mas como sacrifício. Sacrifica-se tempo, presença, relações familiares, filhos e até casamentos. O filme então sugere que ter talento não é uma benção confortável, mas uma exigência que cobra uma resposta que, na maioria das vezes, é bastante cruel.
Criar, portanto, não é escolha estética, mas uma obrigação íntima. E essa obrigação implica o sacrifício, não apenas biográfico do artista, mas um bem mais profundo: o de submeter a experiência vivida às exigências estéticas da beleza. O artista verdadeiro é aquele que aceita a disciplina do fazer artístico, que aceita, enfim, a renúncia à expressão imediata em favor da integridade, da harmonia e da clareza da obra. Hamnet ecoa essa ética. E ainda reivindica que ter talento não é licença para falar de si, mas obrigação de construir algo que ultrapasse o indivíduo e, tornando-se universal, se sustente por si mesmo.
É assim que Hamnet se aproxima daquilo que James Joyce considerava a forma mais alta da arte: aquela em que o artista desaparece atrás da obra, e a obra passa a viver por conta própria. A dor que a originou já não pertence a ninguém; tornou-se forma definitiva. O sacrifício não é apenas perder, mas aceitar que o talento exige esse desaparecimento. A arte não pode curar o luto de William e Agnes, mas ela o fixa, o ordena e o entrega ao olhar como algo completo, silencioso e universalmente contemplável. E, então, num silêncio contemplativo final, Agnes Hathaway pode sorrir diante da própria tragédia.
E é exatamente nesse gesto singelo, mas sublime, que o filme encontra sua verdadeira ambição estética.







Excelente texto, Chiuso!
Que filme bonito!