#Cinema: O filme mais psicodélico de todos os tempos
Hunter Thompson tem a sua biografia revelada de uma maneira pouco convencional de se contar uma história no filme “Medo e Delírio em Las Vegas"
Imagine, caro leitor, que um grande escritor americano, considerado o pai do que se convencionou chamar de “Jornalismo Gonzo”, ou seja, quando o jornalista teve a vida desvelada por meio de uma obra cinematográfica em que abusos de drogas, viagens aleatórias e orgias com prostitutas são vistos como algo trivial?
Sim, esse filme existe, foi dirigido pelo lendário Terry Gilliam, responsável também pelo clássico “Brazil”, de 1995, estrelado pelas concisas atuações de Johnny Depp, de Benicio Del Toro, de Tobey MaGuire e de Craig Bierko nos papéis principais e baseado no livro Medo e delírio em Las Vegas, de Hunter Thompson, um dos maiores escritores americanos do pós-guerra.
O início da película é emblemático: num conversível vermelho, que mais parece um Cadilac Biarritz de 1952, pela Costa Leste Americana, especificamente na lendária Highway 101, mostra-se uma viagem sem rumo de Raoul Duke, personagem fortemente inspirado em Hunter Thompson, que tem os mesmos trejeitos do influente autor, e de Doutor Gonzo, um advogado amigo de Duke que pode ser visto como o seu duplo ou como uma pessoa imaginária, que também pode ser interpretado como um reflexo do seu abuso de drogas ilícitas e de álcool.
Nisso, avistam um garoto denominado “O Mochileiro”, que solicita carona e que também é atendido pela dupla. Entre conversas bastante lisérgicas e sem sentido, os três encaram um sol escaldante a caminho de Las Vegas, lendária cidade americana em que os anseios individuais apontam para um ambiente de esbórnia sem limites.
Ao chegarem à Cidade do Pecado, alucinações e psicodelia misturam-se com a realidade, sobretudo pela invocação de monstros e de criaturas disformes com indumentárias espalhafatosas que mais parecem advindas de filmes de terror trash de baixo orçamento dos anos 80, que é uma das características do diretor britânico.
Assine o NEIM e compartilhe o nosso conteúdo.
Ajude a ampliar cada vez mais o nosso trabalho.
Nos planos seguintes, numa espécie de metaficção narrativa, Duke confunde-se com a figura do roteirista e do narrador ao ser personagem do próprio filme em que ele dirige, em uma versão psicodélica de si mesmo, especialmente acerca do desenrolar da trama, que se torna cada vez mais absurda e grotesca.
A progressão torna-se frenética e completamente alucinógena em seguida, especialmente numa cena em que se mostra a disputa em um rally de terra com visões bizarras de Duke em que nada faz sentido.
O filme torna-se cada vez mais ininteligível e experimental sem distinção entre o que Duke vê e a realidade, que se torna cada vez mais insofismável, por meio de desventuras auto-depreciativas até chegar em um final que não há uma interpretação plausível, podendo ser o que parece ou o que não parece, a depender da perspicácia do espectador.
Nessa película (e também no livro), percebe-se que o intuito do ato de contar uma boa história, ao ser um personagem, ainda que cometa excessos e sacrifícios, é parte exclusiva da arte jornalística em tons de romance por parte de Hunter Thompson e a sua obra célebre merece ser mais lida e também mais debatida.
O filme está disponível no Prime Video.






