#Cinema: o filme mais traumático de todos os tempos
Um trauma que ocasiona um sentimento de luto contínuo é o pano de fundo de “Persona”, realizado em 1966, de direção de Ingmar Bergman
Mais uma vez estou aqui para tratar a respeito de mais um filme intrigante. Trata-se de “Persona”, do grande diretor sueco Ingmar Bergman, conhecido por ter feito, em uma carreira bastante prolífica ao longo de quase 50 anos, mais de 60 filmes.
Bergman foi uma das grandes personagens culturais do século XX por ter sido, além de encenador e roteirista, um escritor de sucesso. Uma das suas obras em prosa mais conhecida é A Lanterna Mágica, relançada recentemente pela editora Cosac.
A versatilidade do célebre diretor sueco é refletida no filme em epígrafe, lançado em 1966, que é um dos seus filmes mais conhecidos. “Persona” transporta o espectador, logo de início, para fluxo alucinatório de imagens que aparentam não ter relação lógica entre elas, num plano-sequência alusivo à câmera-olho de Dziga Vertov sob a visão de uma criança, que pode ser interpretado como um alter-ego do próprio Bergman. Em outro plano, mostra-se este garoto dentro de um recinto equânime a uma clínica psiquiátrica ao consolar uma mulher, que não sabemos quem é, de fato.
Após o começo caótico, conhecemos agora a vida da enfermeira Alma, interpretada pela atriz Bibi Anderson. Esta é mostrada como uma mulher comum e cheia de sonhos, mas que teve a sua vida interrompida por ter sido designada em uma função muito importante: a de ser cuidadora de uma mulher que, em virtude de um grande trauma, não consegue mais falar que, na verdade, é uma atriz famosa, de nome Elizabeth Vogler, interpretada de forma magistral pela estupenda Liv Ullmann, que também foi esposa de Bergman.
Numa espécie de pacto fáustico às avessas, começa-se uma das relações mais intensas da história da cinematografia moderna: o isolamento de ambas numa casa de veraneio, construída numa paisagem exuberante da costa sueca.
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Alma, pela qual é reconhecida como uma das enfermeiras mais experientes que consegue acompanhar pacientes vistos como incuráveis, começa a envolver-se, a princípio, de forma bastante profissional com Vogler. A atriz, numa espécie de observação profunda da sua acompanhante, apenas responde com estímulos mínimos, num contato visual quase que interpenetrante.
Nos primeiros dias, a relação entre ambas é amistosa, pois, sabendo a impossibilidade de fala de Vogler, Alma conta, de forma bastante comovente, a história da sua vida. Começa-se, nesse momento, a troca entre as duas: a enfermeira torna-se, cada vez mais, uma paciente médica e a sua acompanhante a verdadeira terapeuta: isso ocasiona uma sensação de paz profunda para a atriz e desconfiança para a enfermeira, que acha que Vogler tem desempenhado a antiga profissão para com ela.
Toda essa situação desemboca numa cena bastante comovente do longa: o surto de Alma, que começa a ficar desesperada e enlouquecer pelo fato de Elizabeth não falar. A seguir, chora de forma copiosa e é confortada de forma calorosa pela atriz, que vê um profundo senso de humanidade na cuidadora.
A película, que mescla períodos de contemplação paisagística, com intensos picos de tensão, é bastante curta (de 1h23 minutos) e suscita profundas reflexões acerca da identidade, do papel de pessoas na sociedade e traumas pessoais, o que reflete na sua carga valorativa de forte teor artístico, que se encerra como num círculo vicioso sem soluções.
À época do seu lançamento, muitos jornalistas e críticos fizeram inúmeras perguntas sobre o filme a Ingmar Bergman, e as respostas foram bastante enigmáticas e evasivas. O diretor disse, por exemplo, em duas célebres entrevistas — Ingmar Bergman On Persona 1966 (A Poem In Images) e Persona (1966) - Interview With Bibi Andersson, Ingmar Bergman and Liv Ullmann (Eng Sub) — que o filme era altamente biográfico, mas que poderia refletir máscaras sociais de uma pessoa inexistente. Ou seja, o diretor, quando questionando como a audiência iria compreender o filme, foi evasivo a respeito das interpretações.
Sendo assim, vale uma reflexão: será que Alma e Vogler são as duas faces de uma mesma pessoa portadora de Transtorno Afetivo Bipolar (TAB)? Será que formam um casal lésbico? Ou será que são irmãs? Ou ainda que ambas são faces de uma representação fidedigna do arquétipo jungiano?
Depois de assistir, fica a cargo do espectador responder a essas perguntas.
O filme encontra-se disponível na plataforma de streaming Art1, e vale a pena conferir!







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