#Cinema: Os japoneses nunca foram silenciosos
Verdades fragmentadas, samurais cansados e monstros nascidos do trauma
O cinema japonês não nasceu para o silêncio contemplativo que o Ocidente, por preguiça ou exotismo, lhe atribuiu. Ele nasceu do choque, do excesso, do ruído, da guerra narrada em praça pública pelos benshis (narradores que das exibições de filmes mudos), da lâmina que corta o ar, do corpo que cai na lama sob a chuva.
Quando Rashomon irrompe nos festivais europeus, não é apenas um filme que chega, mas uma nova maneira de olhar: a verdade fragmentada, o ponto de vista como drama, a câmera como testemunha instável de um mundo em ruínas. Ali, o Japão deixa de ser uma abstração distante e passa a existir como forma, ritmo e conflito.
Nos estúdios do pós-guerra, enquanto o país tentava reaprender a viver, o cinema assumiu uma função quase fisiológica: fazer circular alegria, dor e desejo. Cantoras dançavam como se cantassem no meio do escombros, melodias leves disputavam espaço com lembranças pesadas demais para serem ditas. As famílias filmadas à mesa não são refúgios, mas campos minados de silêncio, ressentimento e tempo perdido. Cada plano fixo, cada gesto mínimo, parece perguntar o que sobra quando a tradição resiste e o mundo muda rápido demais.
Então surgem os samurais, não como figuras do passado, mas como mitos em movimento. Eles correm contra o vento, escorregam na chuva, erram golpes, sangram. A espada não é apenas arma: é ética, fardo, identidade. O heroísmo perde o verniz solene e ganha cansaço, ambiguidade, ironia. O guerreiro torna-se um homem cercado por forças maiores que ele — a história, o dinheiro, a decadência — e o cinema de ação aprende, ali, que violência também pode ser pensamento.
Mas é um monstro que levará o Japão ao imaginário global. Gigantesco, radioativo, nascido do trauma, ele pisa cidades como quem revive um pesadelo coletivo. O terror inicial logo se transforma em espetáculo, em cor, em fábula quase infantil — não por esquecimento, mas por sobrevivência. Entre prédios que desmoronam e criaturas improváveis, o cinema japonês ensina que até a catástrofe pode ser narrada, reelaborada, domesticada pela fantasia.
Quando a juventude toma as ruas e a ordem antiga começa a ranger, o cinema perde a paciência com seus próprios mitos. Câmeras descem ao asfalto, personagens vivem à margem, a provocação substitui o respeito. Os samurais envelhecem, os estúdios fecham, uma era termina. Mas nada se encerra de fato. O cinema japonês permanece como uma arca cheia de formas, gêneros e invenções. É uma memória inquieta que, sempre que reaberta, continua a nos lembrar que o espetáculo, quando verdadeiro, nunca é apenas entretenimento: é um modo de existir no tempo.






