#Cultura: sem risco, não há piada
O humor deixou de ser uma ruptura temporária da ordem para fins cômicos, para se converter num instrumento de manutenção de uma ordem convencional e tediosa.
Houve um tempo em que o comediante ocupava a posição de um herege tolerado. Sua função não era confortar a plateia, mas desorientá-la. Ele entrava em cena para violar o tom correto das coisas, para introduzir ruído onde o discurso público buscava harmonia.
O riso nascia precisamente desse desequilíbrio. Alguém dizia o que não podia ser dito, atravessava o limite invisível da convenção e, por um instante, expunha tudo ao ridículo. O humor sempre foi uma forma de risco, porque, ainda que seja elaborado tecnicamente, não é uma ciência exata. Por isso mesmo a resposta do público será sempre incalculável.
Aos poucos, porém, a lógica da comunicação de massa descobriu algo muito mais rentável do que a piada: a confirmação. O riso, afinal, é instável. Escapa ao cálculo porque depende do inesperado. Já o aplauso é diferente. Ele nasce do reconhecimento. Acontece quando a audiência escuta aquilo que já acredita e dá a sua validação. Então, a comédia já não serve para desestabilizar certezas, mas para reafirmá-las. E deixa de ser comédia.



