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#Cultura: sem risco, não há piada

O humor deixou de ser uma ruptura temporária da ordem para fins cômicos, para se converter num instrumento de manutenção de uma ordem convencional e tediosa.

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Nunes Pires
mai 27, 2026
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Houve um tempo em que o comediante ocupava a posição de um herege tolerado. Sua função não era confortar a plateia, mas desorientá-la. Ele entrava em cena para violar o tom correto das coisas, para introduzir ruído onde o discurso público buscava harmonia.

O riso nascia precisamente desse desequilíbrio. Alguém dizia o que não podia ser dito, atravessava o limite invisível da convenção e, por um instante, expunha tudo ao ridículo. O humor sempre foi uma forma de risco, porque, ainda que seja elaborado tecnicamente, não é uma ciência exata. Por isso mesmo a resposta do público será sempre incalculável.

Aos poucos, porém, a lógica da comunicação de massa descobriu algo muito mais rentável do que a piada: a confirmação. O riso, afinal, é instável. Escapa ao cálculo porque depende do inesperado. Já o aplauso é diferente. Ele nasce do reconhecimento. Acontece quando a audiência escuta aquilo que já acredita e dá a sua validação. Então, a comédia já não serve para desestabilizar certezas, mas para reafirmá-las. E deixa de ser comédia.

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Nunes Pires
Nunes Pires, escritor e amante das artes, encontra na literatura um refúgio para seu eterno descontentamento. Entre o lirismo e a crítica, escreve como quem observa o mundo com fascínio — e uma boa dose de irritação.
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