#HáSalvação
Por que tentar salvar o Brasil sempre dá errado
Os problemas do Brasil são notórios. Mesmo quem não lê um mísero jornal, mesmo quem não segue um mero perfil político das redes sociais, sabe quais são nossos problemas sociais e porque os enfrenta diariamente no mundo real. São tantos que defini-los neste texto seria uma perda de tempo e espaço. Basta dizer que aquilo que nos diferencia como nação é, acima de qualquer coisa, a nossa imprevisibilidade. Neste país, absolutamente nada é previsível. Cada aspecto de nossas vidas é de difícil planejamento. Não sabemos como será nossa economia no futuro próximo, impedindo-nos de fazer um investimento financeiro ou produtivo consciente. Não sabemos se os impostos ou as leis serão as mesmas daqui a alguns meses. Não sabemos se nossos políticos eleitos terminarão seus mandatos. Não sabemos nem mesmo se estaremos vivos ao fim do dia, tamanha a violência de nossas cidades. Como diria Roberto Campos — e o STF já deixou isso bem claro — até o passado é incerto no Brasil. Para usar um termo que os progressistas adoram, temos um caso de imprevisibilidade “estrutural” por aqui. A questão é se ainda podemos nos salvar. Se sim, como?
Antes de tudo, é preciso entender as causas e raízes do atraso. Não faltam livros que explicam o fracasso dos países de terceiro mundo. As explicações vão, de maneira geral, desde o determinismo geográfico até a cultura dos povos. Mais especificamente sobre o Brasil, temos nossa própria literatura sobre o atraso nacional. Alguns autores desse gênero são Sérgio Buarque de Holanda e Raymundo Faoro. Para Buarque, nosso subdesenvolvimento decorre do personalismo do Homem Cordial e da confusão entre as relações privadas e as instituições públicas. Enquanto, para Faoro (em Os donos do poder), o Estado foi tomado por uma elite burocrática que usa o público como extensão dos seus interesses particulares. Em suas diferentes interpretações, ambos os autores apontam para a dificuldade de institucionalizar uma democracia liberal e impessoal no Brasil.
Algo comum na tese dos dois autores é o contraste entre as relações do brasileiro com o coletivo e com a sua vida particular. Essa interpretação fez com que focássemos na reforma social como vetor do desenvolvimento. Devido a tantos fracassos históricos, não seria melhor tentarmos, a essa altura das coisas, mudar o Brasil de outra maneira, voltando-nos para o individual? Pode parecer cinismo ou mesmo indiferença, mas a recusa em alimentar a máquina moral que transforma boas intenções em licença para abusos talvez seja nossa única esperança.
Explico: a ideia de reforma social parece ter estado sempre presente em nosso país e servido de justificativa para a criação daquilo que Daron Acemoglu e James A. Robinson — autores de Por que as Nações Fracassam? — chamaram de instituições extrativistas. Essas instituições são chamadas assim porque, diferente das instituições inclusivas, elas transferem recursos da maioria para o benefício de poucos indivíduos.
Nossas maiores injustiças sempre são cometidas por meio de justificativas de benefícios coletivos: a ditadura do Estado Novo para nos salvar do comunismo; a ditadura militar para desenvolver o país; uma centralização de poderes no STF para proteger a democracia das fake news; uma corrupção institucionalizada no governo em prol da governabilidade; compra de votos por meio de políticas populistas e assistencialistas para acabar com a miséria; golpismo bolsonarista como purificação moral e política contra o petismo; privilégios empresariais, corporativos ou judiciais sempre defendidos para proteger empregos. Todas as regalias individuais pressupõem uma nobre causa coletivista por trás. Se pararmos de mirar no progresso coletivo e pensarmos no progresso individual, talvez tenhamos resultados melhores.
O desenvolvimento individual é difícil e doloroso. Todos que já tentaram sabem disso. Mudar o mundo é um projeto mais fácil do que mudar nós mesmos. É por isso que jovens preferem tanto fazer protestos na universidade a sentar-se na biblioteca e estudar. Erguer um cartaz contra a guerra em Gaza e pichar uma parede contestando o uso de combustíveis fósseis não é apenas mais fácil que abrir um livro de cálculo, é também muito mais divertido.
Portanto, esse é, paradoxalmente, o primeiro passo para melhorar o nosso país: não querer melhorá-lo. Afinal, é desse pretexto que vivem os políticos, os autoritários, as ONGs, os burocratas e os homens de negócio que perpetuam o subdesenvolvimento. A cruzada coletiva para melhorar o Brasil nos levou a todos os ismos que não renderam nenhum fruto: tenentismo, integralismo, getulismo, trabalhismo, nacional-desenvolvimentismo, lulismo, bolsonarismo.
Queira melhorar a si mesmo: cerque-se de bons livros, seja seletivo nas suas amizades, escute boa música, vá a galerias de arte. Nada disso irá melhorar o Brasil, mas irá melhorar o minúsculo canto do planeta que você ocupa. Afinal, ao nos tornarmos melhores, o mundo automaticamente se torna melhor.




Excelente artigo!!!! Parabéns e obrigado!
"Ninguém é obrigado a participar na crise espiritual da sociedade; pelo contrário, todos são obrigados a evitar a loucura e a viverem a sua vida em ordem". Eric Voegelin.