#IlusõesPerdidas
Rússia, Estados Unidos e China mostram que o multilateralismo sempre foi uma ideia coadjuvante
Por Henrique Cavalcanti de Albuquerque*
É sempre bom, mas desconfortável, perder as ilusões. Seja na vida ou na História. O mundo ideal do comunismo, que nos iria trazer abundância, liberdade e igualdade, ruiu em miséria, opressão e intelectuais ressentidos. Há os saudosos, claro. Alguns, quase caricaturais. Stand-Up da intelectualidade de esquerda hoje é um exercício de psicanálise.
Mas há outras ilusões perdidas no mundo contemporâneo. Não que exista uma data fixa para esse mundo que acabou, como a queda do muro de Berlim ou a cena tão simbólica da bandeira da URSS sendo retirada do Kremlin. Falo de outra ilusão: o multilateralismo.
A queda deste mundo ocorreu quando a Rússia invadiu a Ucrânia? Ou seria a eleição de Trump, pela segunda vez? Vai ocorrer de vez se, e quando, os EUA tomarem a Groenlândia? Ainda não temos uma data, mas o processo está bem definido: a utopia multilateral acabou. Agora, é a vez dos fortões.
Ou seria melhor dizer, ela nunca existiu? A comparação com o comunismo é tentadora. A proposta de uma nova sociedade só existiu na teoria. E quando ela foi implementada, só gerou desastres. Na outra ilusão, o mundo multilateral não é um erro imenso e sua aplicação na realidade construiu algo. Porém, a ilusão aqui é achar que este algo, as instituições multilaterais, iriam substituir um dia o poder do Estado unilateral. E esta ilusão sempre foi acalentada por intelectuais que não acreditavam na outra, a do comunismo. No mundo atual, os dois lados podem sentar em um bar e tomarem drinques amargos de realidade, enquanto choram suas mágoas. Entre Marx e Kant, é Tucídides quem ri por último.
A base da construção do mundo multilateral está na obra Zum ewigen Frieden, de Kant, publicada em 1795, em plena ressaca da Revolução Francesa que ainda estava em seus processos finais e já prenunciando as guerras napoleônicas. Na prática, não há divisão clara entre os dois processos. Kant pensou uma forma de dar paz a um continente atolado em sangue e fogo. O que poucos entenderam, e há aqui uma explicação na tradução, é que Kant não era, em absoluto, um otimista inocente. Ele não vê a paz como um processo natural ou um desejo humano, mas uma construção racional, frágil e complexa. E nunca permanente. A tradução da obra costuma ser A Paz Perpétua e não poderia ser mais enganosa. Zum indica um sentido de movimento, portanto a melhor opção seria traduzir e interpretar como “No rumo da Paz Perpétua” ou ainda, “Construindo uma Paz Perpétua”. Kant sabia que um objetivo tão nobre não era um desejo humano baseado na emoção e nas boas intenções, mas um longo e pedregoso caminho, no qual os passos lentos são, por si só, conquistas. A ilusão não nasce no criador mas nos empolgados leitores.
Enquanto o mundo via o fim da II Guerra, na tão famosa conferência de Bretton Woods, foram criadas as instituições que seriam responsáveis por essa paz internacional. ONU e seus braços eram o espaço de debate, negociação e boas intenções. Mas fica evidente que em nenhum momento, URSS e EUA, iriam abrir mão de seus arsenais nucleares em troca de papéis assinados com pompa. A paz do mundo do pós guerra é fruto da diplomacia e da ONU ou do medo de um apocalipse nuclear? Um pouco dos dois, mas a inclinação dos teóricos realistas nas Relações Internacionais sempre foi pela segunda opção. E hoje, podemos ver que estavam mais próximos da realidade.
Quando a Rússia invadiu a Ucrânia, seus argumentos foram geopolíticos. Uma OTAN nuclear não poderia estar a meros 700 km de Moscou, o que dá pouco mais de 5 minutos em um míssil moderno. Culpa-se Putin por seu desejo algo patológico de recriar o espaço geopolítico da URSS. Mas não se pode culpá-lo por ignorar algo muito evidente por si mesmo: o mapa. O que a OTAN iria fazer em um território dentro da área de segurança da Rússia? Uma nova crise dos mísseis cubana, em pleno XXI, só mostra o óbvio. Não interessam suas boas intenções. O território impõe uma lógica. E o poder responde aos dois.
Com isso, a ilusão se encerra em triste sombra. A Rússia não estava certa em invadir a Ucrânia. Mas o fez mesmo assim. O Direito Internacional foi violado. E ninguém em nenhum lugar vai fazer algo a respeito. E se você, seu narcisista, acha que sua opinião intelectual é importante, tanques, caças e bombas vão apenas se levar de volta ao pântano mais concreto que existe: a realidade. Bons tempos aqueles em que tínhamos intelectuais como Ernest Hemingway, que lia e escrevia livros, mas lutava box e pegava em armas. Nossa esquerda Leblon hoje vai ao STF cada vez que corre o risco de ouvir uma opinião alheia.
O mesmo vale para Trump e os EUA tão odiados. Enquanto eles brincavam de multilateralismo, todo mundo concordava. O que talvez escapa, ou é fruto de autoengano, é que o mesmo país que construiu os organismos multilaterais é o que tem o maior orçamento militar do mundo. Em nenhum momento os americanos se iludiram, acreditando que papéis e discursos seriam o suficiente para expressar poder. Onze porta-aviões e 5 mil ogivas nucleares o fazem. Justiça seja feita aos soviéticos, tão brutalizados pela guerra. Sempre fizeram parte da ONU mas sempre confiaram em suas armas. Resultado: massacraram a Ucrânia quando foi do seu interesse, certo ou errado. Russos caíram na ilusão do comunismo, mas não na do multilateralismo.
Não vamos nos esquecer da China, que se tornou uma potência seguindo as regras da globalização e do multilateralismo “by the book”. E está aumentando seu arsenal nuclear e lançando seu terceiro porta-aviões, três mais a caminho. De ilusões e loucuras, basta a Revolução Cultural de Mao.
O mundo do início do XXI não é menos seguro do que o XX. É simplesmente menos iludido. No momento em que os EUA agora realizam seus interesses estratégicos sem muitos pudores, críticos gritam que a “velha ordem mundial baseada em regras” foi destruída. Mentira. Ela nunca existiu. A ordem mundial baseada em regras é a mesma da Guerra do Peloponeso, escrita há 2.500 anos: os fortes, com seus interesses vencem, e os fracos, sendo fracos, aceitam. Isso torna o mundo mais injusto, mas singularmente mais racional. E talvez a ilusão seja o principal fator da insegurança.
Henrique Cavalcanti de Albuquerque é graduado em História pela USP e mestre em História da Cultura pela PUC SP. Professor de Relações Internacionais na Anhembi Morumbi e autor de Política Externa Brasileira e Uma História do Brasil, Trajetórias e Sentidos, ambos pela editora Freitas Bastos.





Realidade nua e crua e doa a quem dor é oque vem por aí.
Si vis pacem, para bellum.