#Interlúdio: Como Edmund Burke explicaria o Irã
O problema, na concepção burkeana, não está na substituição de um regime por outro, mas na tentativa de reorganizar toda a sociedade segundo utopias ideológicas
A história da Revolução Iraniana de 1979 pode ser lida à luz de uma intuição central de Edmund Burke: a ideia de que sociedades não podem ser reconstruídas a partir de abstrações revolucionárias sem que se destrua, no processo, o delicado equilíbrio entre tradição, instituições e liberdade.
Em Reflexões sobre a Revolução na França, Burke advertia que a liberdade não nasce de rupturas radicais, mas de uma evolução histórica lenta, na qual costumes, instituições e práticas sociais se sedimentam ao longo do tempo. Quando uma revolução decide recomeçar do zero, ela frequentemente substitui uma ordem imperfeita, que pode ser reformada e aprimorada, por um despotismo irremediável.
A ascensão de Khomeini confirma esse diagnóstico. Nos meses que antecederam a queda do regime, o ele se apresentou como uma figura moderada e conciliadora, sugerindo que o Irã poderia encontrar um caminho para a modernização política, social e econômica. Os iranianos desejavam se livrar de uma monarquia extremamente corrupta e repressiva, por isso aceitaram cegamente a liderança de Khomeini, que fazia promessas mirabolantes que jamais pretendia cumprir.
Nas Reflexões sobre a Revolução na França, Burke descreveu exatamente esse tipo de entusiasmo revolucionário, em que a ânsia por mudanças políticas extremas inviabiliza qualquer análise prudente sobre as consequências das ideias que estão sendo apresentadas.
O problema, na concepção burkeana, não está na queda de uma monarquia ou na substituição de um regime por outro, mas na tentativa de reorganizar toda a sociedade segundo utopias ideológicas. A Constituição inspirada no tratado de Khomeini, que concebia a sociedade como um rebanho que precisa dos cuidados de um extremista religioso, rompeu completamente com a ideia de pluralidade institucional que sustenta a liberdade e, sobretudo, a democracia.
Todo revolucionário promete destituir a tirania, restaurar a liberdade e dar uma vida boa a toda a população. Diante da retórica do “despertar do povo”, seja da alienação de classe social ou das conspirações antissistêmicas, as pessoas vão se deixando convencer de que é preciso virar o mundo do avesso.
Mas a liberdade não surge do nada nem pode ser criada por decretos políticos. Ela é resultado de um processo histórico longo, no qual instituições, costumes e leis evoluem gradualmente. Nas suas Reflexões sobre a Revolução na França, Burke desenvolve essa ideia de que as liberdades políticas são conquistas acumuladas da civilização, não direitos inventados por filósofos ou ideólogos.
A verdadeira estabilidade política nasce, portanto, da continuidade histórica e da prudência institucional. Quando essas condições são destruídas em nome de uma utopia revolucionária, o resultado costuma ser exatamente o que ocorreu no Irã: décadas de repressão, instabilidade política e econômica e uma sociedade que luta permanentemente para recuperar as liberdades perdidas com a ascensão de uma teocracia autoritária e terrorista.
Reflexões sobre a Revolução na França
Edmund Burke
Com prefácio de João Pereira Coutinho
Vide Editorial, 2017
364 páginas





Exatamente! Além disso, a Revolução do Irã colocou a religião como elemento central, repercutindo em todo o Oriente Médio …
Política e religião: mistura explosiva! 💣
Gostei do texto! 👏🏻🏆
A análise serve não só para o Irã, mas também para o que a petezada fez e está fazendo no bananal. Preciso ler esse livro.