#Interlúdio: O desconcerto do mundo
Se a humanidade progride a passos largos, criando ciência, tecnologias e comunicação instantânea, porque não evoluiria também rapidamente naquilo que tem de pior?
A difusão excessiva de informação criou um ambiente propício para os intelectuais holísticos quefalam de tudo e de todos, sempre com aquela profundidade clássica que falava Nelson Rodrigues: onde uma formiga passa com a água nos joelhos.
Os bons vi sempre passar
No mundo graves tormentos;
E para mais me espantar,
Os maus vi sempre nadar
Em mar de contentamentos.
Cuidando alcançar assim
O bem tão mal ordenado,
Fui mau, mas fui castigado.
Assim que, só para mim,
Anda o mundo concertado.
— Camões
No final da década de 60, o filósofo canadense Marshall McLuhan já preconizava um dos problemas que vivemos hoje em dia: o dilema entre a nossa exigência de privacidade e o direito coletivo à informação. McLuhan ficou conhecido pelo talento para pressagiar inovações tecnológicas, mas nunca imaginou que as pessoas tornariam as suas intimidades públicas de maneira voluntária. No entanto, previu que os meios de comunicação digitais produziriam um fluxo de informação que seríamos incapazes de absorver.
A verdade é que vivemos em um ambiente poluído o bastante para propiciar uma difusão de valores e costumes exacerbada pelo vício da curiosidade. E como a tecnologia nos proporcionou uma facilidade quase inacreditável para produzir e divulgar informações, a banalidade acaba sendo propagada sem qualquer obstáculo.
Por outro lado, existe o mito de que é necessário estar bem informado. E isto significa consumir o máximo de notícias possíveis. O consumo desvairado de informação nos faz acreditar que estamos compreendendo melhor o mundo, mas é somente uma ilusão. Quando não há uma triagem para separar o que é realmente importante do que é desprezível, acabamos consumidos pelas informações que nos atacam por todos os lados. O resultado, segundo a neurociência, é apenas o aumento significativo de cortisol e de dopamina que superestimulam o nosso cérebro, nos deixando ainda mais confusos e irritados.



