#Interlúdio: O espaço vazio das razões
Quando a discordância vira entretenimento
Existe um gênero não tão novo no YouTube. A embalagem é contemporânea, o instinto que o anima é tão velho quanto matar escravos no Coliseu. O formato se anuncia nos títulos com os marcadores de apostas: 1 Cristão VS 25 Ateus, 1 Biólogo VS 30 Veganos, 1 Conservador VS 20 Progressistas, 1 Puta VS 30 Tias Lurdes. O número importa. Ele promete. Promete o que qualquer bom espetáculo promete: a possibilidade do massacre — ou do milagre.
Assisti a alguns desses vídeos com certo constrangimento alheio. A primeira conclusão é banal: isso é só entretenimento com pretensão intelectual, e a pretensão é a parte que menos me incomoda. Ringue de boxe é ringue de boxe. O incômodo começa quando o ringue se apresenta como academia filosófica. Esse tipo de programa não se pretende inteligente. Só alguns participantes, o que realmente constrange.
A segunda conclusão considero mais sofisticada. Esses programas ensinam alguma coisa — e o que ensinam prescinde completamente do tema do episódio. O assunto é Deus, veganismo ou política. Sexo. Transfobia. O conteúdo é o pretexto. A lição que fica circula pela estrutura do formato, antes que qualquer participante abra a boca.


