#Interlúdio: O romantismo político
Os sentimentos tornaram-se fundamentos para os juízos morais e, portanto, a vontade subjetiva passou a requerer status de direito
A França do século XVIII viu florescer a chamada sensiblerie: uma sensibilidade filosófica que as pessoas ociosas adotavam como estilo de vida. Tinham desprezo pela vida comum e exaltavam o homem qualificado e com a sensibilidade aflorada que, dizia Bertrand Russell, na sua História da Filosofia Ocidental, “seria levado às lágrimas pela visão de uma família de camponeses necessitados, ao mesmo tempo que seria frio diante de projetos premeditados para a melhoria da vida da classe camponesa”. Os poetas da época cantavam versos sobre a vida simples no campo, sem muitos prazeres nem muitas ambições, enquanto Voltaire fazia piada desse excêntrico estilo de vida, como na sua famosa carta a Rousseau, em que comenta o célebre Discurso sobre a desigualdade, de 1754:
“Recebi seu livro contra o gênero humano e agradeço muito. É certo que agradará aos homens a quem você dirige suas verdades, mas também é certo que não os corrigirá. Você pinta com muito realismo os horrores da sociedade humana, da qual somos consolados por nossa ignorância e fraqueza. E nunca se empregou tanta vontade em querer nos tornar animais. Sinto-me até inclinado a andar de quatro patas quando leio a sua obra. No entanto, como perdi esse hábito há mais de sessenta anos, creio que, infelizmente, não tenho como retomá-lo agora, e deixo este comportamento natural aos que são mais dignos do que nós. (…) O Sr. Chappuis informou-me que você anda com a saúde muito abalada; seria necessário vir restabelecê-la respirando o ar puro da terra natal, gozar a liberdade primitiva, beber comigo o leite de nossas vacas e pastar o nosso capim”.
Mas Rousseau tentava ver o mundo a partir de uma perspectiva estóica. Dizia que o progresso da civilização alienava o homem da sua dignidade de “bom selvagem”. Para se livrar dos vícios e buscar as virtudes seria preciso um retorno ao homem primordial e, assim, a humanidade poderia ouvir a voz da natureza que ecoa dentro de cada um de nós. “Tudo está bem quando sai das mãos do Autor das coisas; tudo degenera nas mãos do homem”, ele afirma logo no primeiro parágrafo de Emílio ou da educação. Rousseau “converteu-se a si mesmo em defensor da virtude ascética”, dizia Russell, e via o homem aprisionado num complexo de tendências naturais reprimidas socialmente, por isso uma purificação dos costumes seria necessária para se libertar da alienação.


