#Interlúdio: Os desencantos de uma sociedade egocêntrica
A nossa época é marcada por um certo ecumenismo opinativo, de onde brotam cientistas e intelectuais holísticos proferindo toneladas de banalidades
O mundo inteiro clama por ciência. Mas também por astrologia. Segundo as mais prestigiadas consultorias de negócios, as tendências de mercado para próxima década serão dominadas por mapas astrais, terapia com cristais e homeopatia. Chega a ser inacreditável que o esoterismo esteja prosperando numa época em que se exige comprovação científica para tudo. Nem o velho Marx, que proclamou a religião como ópio do povo, poderia imaginar que a humanidade seria embriagada por florais de Bach e formaria uma fila imensa para consultas íntimas com algum guru de Abadiânia.
Mas a ciência também tem o seu lado esotérico. Ernest Renan dizia que “ela só teria valor se pudesse substituir a religião”. O antissobrenaturalista francês também cultivava o mesmo purismo ingênuo de Condorcet, que via no progresso a única esperança da humanidade, a ponto de acreditar que um dia viveríamos numa época em que “o sol iluminaria somente os homens livres que não reconheceriam outros mestres a não ser a sua própria razão”. Amarga ingenuidade. Condorcet foi executado pelo fanatismo das luzes que proclamava que o homem jamais repetiria os erros do passado.


