#Interlúdio: Quando a verdade é feita de mentiras
F for Fake, de Orson Welles, é uma premonição cinematográfica da era digital
Orson Welles sempre chegou antes. Antes de Hollywood saber o que fazer com ele, antes do rádio entender o estrago que podia causar, antes do cinema aceitar que a verdade podia ser uma questão de montagem.
Welles fez fama aos 25 anos com Citizen Kane e passou o resto da vida pagando o preço de ter demonstrado, cedo demais, que a autoridade era apenas um truque de cena. Quando chegou aos anos 1970, já não era um gênio precoce: era um artista errante, exilado, livre — e perigosamente lúcido.
É nesse ponto que surge F for Fake (1973). Oficialmente, um filme sobre um falsificador de quadros e um falso biógrafo, geniais na arte da mentira. Na prática, um ensaio vertiginoso sobre a própria ideia de verdade. Welles aparece em cena como mágico, narrador, charlatão confesso. Promete não mentir por uma hora – e cumpre. O espectador, numa cumplicidade estética, deixa-se levar pelo ritmo da narrativa.



