#Interlúdio: Quando tudo está em via de destruição
Ser racional não consiste apenas em rejeitar o que obviamente não funciona, mas em reconhecer que devemos manter as coisas que estão dando certo
Maquiavel acreditava que “o homem que se presume totalmente bom, acaba arruinado entre tantos que não o são”. Ele rejeitava o pensamento antigo que concebia a virtude humana como um valor superior, porque só conseguia enxergar a corrupção social da sua época. É inevitável fazer um paralelo com o Brasil atual, onde é sempre difícil encontrar uma pessoa virtuosa, sobretudo no mundo político.
Mas tanto o nosso pessimismo quanto o do filósofo florentino não são novidades. Platão e Aristóteles já afirmavam ser impossível estabelecer o melhor regime ou a melhor ordem política numa sociedade dilascerada pela corrupção. No entanto, acreditavam na possibilidade de se criar um ambiente cultural em que a política fosse pautada pela justiça e pelo bem comum.
Para Maquiavel, isso era uma perda de tempo. Ele não tinha o menor interesse “nessas repúblicas ideiais que jamais existiriam”. Queria apenas explicar a estrutura da política real, por isso se esforçou para descrever as entranhas do poder com um realismo de chocar a burguesia.
Outro pessimista era Hobbes. No Leviatã, diz que “as repúblicas são dissolvidas pelas guerras intestinas, e a culpa não é dos homens enquanto matéria, mas como produtores do caos”. Também é algo muito parecido com o que Platão já dizia na República: as democracias podem sofrer com a corrupção generalizada, a ponto de a corrupção se tornar não apenas visível, mas tolerada e até mesmo celebrada por muita gente.



