#Literatura: A fortuna crítica de Guilherme de Almeida (1)
Ele foi um dos maiores escritores do nosso país, mas hoje é um ilustre desconhecido
Olá, leitores do Não É Imprensa! Tudo bem? É uma honra poder escrever para a maior página do Substack do Brasil. Gostaria de escrever, de forma serial, sobre um dos maiores escritores do nosso país: o hoje ilustre desconhecido Guilherme de Almeida, homônimo do museu (Casa Guilherme de Almeida) situado no bairro Sumaré, em São Paulo.
Para isso, utilizei das sua obras completas nominadas como Toda a Poesia da edição de 1952 publicadas pela Livraria Martins Editora, além de alguns livros de crítica literária, dentre eles Poetas do Modernismo, publicado em seis tomos com coordenação do professor Leodegário de Azevedo; A Literatura Brasileira, em cinco tomos, de coordenação do professor Afrânio Coutinho; Guilherme de Almeida: Poeta Modernista, de José Antonio Ribeiro; Pontos de Vista e História da Inteligência Brasileira, em inúmeros tomos, de Wilson Martins, dentre outros.
Feitas as devidas apresentações, começo a tratar sobre este grande poeta.
De Almeida foi um dos grandes expoentes da Semana de 1922, embora tenha iniciado a sua profícua carreira um pouco antes, com o primeiro volume de poesias de juvenília denominado “Simplicidade”, que fora concebido entre 1912 e 1914, mas publicado em 1929.
É um poeta atemporal, que não pode ser classificado em qualquer escola literária preexistente, justamente pela sua versatilidade, que encontra azo no seu fazer poético, que se reflete em 26 livros de coletâneas de poemas, até mesmo em inúmeros outros de tradução, de ensaios e também de teatro. Além disso, foi um grande heraldista [aquele quem elabora brasões], conhecido também por ter feito o Brasão de Armas do Estado de São Paulo.
Caracterizado por elaborar rimas por aproximação, como no notável poema “Berceuse [canção de ninar] de rimas riquíssimas”, como podemos constatar nos determinantes [última palavra do verso] “lágrimas/ milagre mas”, o autor paulistano sempre utilizou da poética ritmada e rimada como fonte de inovação, mesmo que à época da sua produção intelectual o verso livre e experimental fosse a tônica.

No auge das vanguardas da primeira década do século XX, o autor preferira um verso de teor modernista/romântico/memorialista ao verso esbatido e circular, tal qual os grandes poetas da época elaboraram. Também o estilo do poeta, nesta primeira fase da sua obra, impressiona pela intercalação entre versos alexandrinos [12 sílabas métricas], sáficos [verso de 11 sílabas métricas embricado com o posterior de 5], metro clássico [de 10 sílabas] e também a recorrência aos metros gregos: iambo, troqueu, espondeu e hexâmetro. Há também pouca recorrência a sinalefas (encontro vocálico entre duas sílabas métricas terminadas em vogal) e a enjambements (versos que terminam no verso seguinte).
Em “Simplicidade”, livro dividido em duas partes, a saber, “A Primeira Mágoa” e o “Primeiro Amor”, pode-se constatar isso logo de antemão com a poesia “Coração”, a primeira que abre a coletânea, da qual o poeta prefere utilizar uma poesia de teor mais puro/memorial em evocar as suas lembranças da infância como em “minha vida de criança/minha bolha de sabão!” ou também como “que enxurrada te carrega, meu barquinho de papel”?
São versos de mecânica simples, porém dinâmicos e não-circulares, que podem até ser constatados como risíveis pela falta de maturidade poética à primeira vista, já que foram concebidos quando Guilherme de Almeida tinha 22 anos.
Outro verso importante advém do poema “Canção da Simplicidade”, cuja disposição apresenta a visão do jovem autor a respeito da sua juventude: “ela [a simplicidade] é bem como a mocidade:/melancólica e natural”, pela qual faz o subtítulo da divisão, “A Primeira Mágoa”, dar sentido ao ethos da sua obra.
Este sentimento de rememorações e de forte teor melancólico é presente também nos poemas “A Alma Triste da Rua” e “As Árvores da Rua”, cujos versos destacam compaixão pela paisagem do espaço referido.
Por conseguinte, nas próximas poesias do compêndio, como Os Varredores, As Neblinas, Cantiga de Névoa, As Asiladas e As Velas, verifica-se uma forte carga simbolista e de teor pessimista a respeito da imagética refletida em situações do seu cotidiano de jovem no período da Belle Époque.
A seguir, em Morte e Metempsicose, uma poesia de forte teor simbolista, aos moldes de Cruz e Sousa, principalmente nesta primeira estrofe da segunda: “Morrer… Pelos caminhos/ir branco, ir muito frio, ir de roupinha nova, as mãos em cruz, o olhar de vidro, os pés juntinhos: ir assim para a cova!”
A segunda parte da coletânea O Primeiro Amor apresenta poemas de teor romântico tardio como Elegia dos Sinos e Balada do Solitário, cujas características do fazer poético assemelham-se aos da segunda fase do romantismo, principalmente com as de Álvares de Azevedo.
O Cruzado apresenta uma homenagem aos versos de Camões, que refletirá em toda a sua obra seguinte, tendo por ápice o livro intitulado Camoniana, publicado em 1956.
As demais poesias fecham esta primeira coletânea de poemas sempre com um teor introspectivo, memorialístico, melancólico, sensual (beirando ao erótico) e nostálgico.
Conforme vocês possam verificar, Guilherme de Almeida é um poeta que precisa ser redescoberto e lido, justamente pelo seu caráter atemporal que une diversos estilos literários em um só modo de fazer poético. Sendo assim, recomendamos a leitura das suas coletâneas de poesias, intitulada Melhores Poemas de Guilherme de Almeida, publicada pela Editora Global.
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Max Avelar é escritor e crítico literário e escreve para os portais O Brasil de Cima e o Bastião e para a revista digital Severina.





Nossa, Max Avelar, obrigada por me lembrar que preciso redescobrir Guilherme de Almeida!