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#Literatura: a incontinência do bode(4)

"A festa do bode", de Mario Vargas Llosa é um retrato multifacetado do poder ditatorial, incluindo seus efeitos psicológicos no dia-a-dia de pessoas comuns

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Vivian Schlesinger
dez 24, 2025
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Parte 4

Como nasce um ditador? Ninguém nasce ditador, mas o germe do tesão pelo poder, esse sim, pode-se notar em qualquer jardim da infância. Há o Zezinho que arranca a boneca da mão da Lulu e joga longe; há a Isa que faz a cabecinha da Sofia para puxar o cabelo da Daniela, e há o Tom que vê tudo isso em silêncio, sempre com um sorriso cínico nos lábios. Quanto mais a Lulu chora, quanto mais a Daniela grita, mais o Tom sorri. Tom vai ser um ditador - se deixarem. Como dizia Mario Vargas Llosa, um ditador não chega pronto, ele se faz com a cumplicidade de suas vítimas e o silêncio dos covardes, que se acham seguros - até que se transformam em vítimas também.

Rafael Leónidas Trujillo Molina tornou-se ditador por uma configuração cósmica que lhe permitiu aproveitar o treinamento militar e de liderança dado pelos Marines, nascer em um país carcomido pela corrupção endêmica, estar cercado por líderes fracos que o subestimaram, e por fim, quando chegou onde queria chegar, dominar um povo que, em troca de desenvolvimento, infraestrutura e mobilidade social, vendeu sua alma em parcelas a perder de vista.

A festa do bode é um retrato multifacetado do poder ditatorial, incluindo seus efeitos psicológicos no dia-a-dia de pessoas comuns, e as consequências de longo prazo, visíveis até hoje. Nas mãos de um romancista dedicado às possibilidades da ficção, em todas as suas variações de linguagem, personagens e temas como Vargas Llosa, um ditador levanta-se da página e agride o leitor, tanto quanto agride os personagens à sua volta:

...Trujillo também matara, de uma forma mais lenta e perversa do que aqueles que ele liquidava com balas, golpes ou atirando-os aos tubarões. Ele os matava aos poucos, roubando-lhes a decência, a honra, o respeito próprio, a alegria de viver, as esperanças, os desejos, deixando-os reduzidos a pele e osso, atormentados pela consciência culpada que os destruía pouco a pouco há tantos anos.

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