#Literatura: A representação literária do cotidiano
Os "Ensaios de literatura ocidental" de Erich Auerbach
Erich Auerbach escreve como quem desconfia das sínteses fáceis e das teorias barulhentas. Seus ensaios avançam com a paciência de um filólogo e a ambição do historiador: cada texto é um exercício de atenção extrema à linguagem, à forma e ao mundo que nelas se inscreve.
É também um excelente escritor. Seus textos têm sempre aquela beleza que ele tenta retratar nos livros e autores que analisa.
Em Ensaios de literatura ocidental, ele escreveu um dos texto mais belos sobre As flores do mal de Baudelaire. E também um maravilhoso ensaio sobre o desenvolvimento intelectual e teológico da teoria política de Pascal.
O livro reúne estudos dispersos ao longo de décadas, mas o objetivo é, de fato, compreender como a literatura ocidental aprendeu a representar a realidade. Auerbach não busca “ideias” soltas, interpretações fantasmagóricas e nem sistemas fechados. Ele observa com a atenção de quem se deleita com a poesia do pensamento de Dante e Virgílio, com as extravagâncias de Proust, com o coração aberto de Montaigne. A literatura, para ele, não reflete apenas a história e as escolhas formais dos autores. É beleza, é encarnação, é realidade.
Nesses ensaios Auerbach também lida com a representação do cotidiano na literatura ocidental. Ele mostra como o Ocidente aprendeu a olhar para si mesmo sem contextos heróicos e extraordinários ou mitologias reconfortantes. Neste aspecto, o ensaio sobre o sermo humilis de Santo Agostinho é não apenas comovente, mas revelador.
Também impressiona o método: nenhuma retórica de filólogo, nenhuma condenação explícita. Auerbach não julga as obras; ele as escuta e as explica com começo, meio e fim. Sua crítica nasce da comparação paciente entre épocas, estilos e tradições. O leitor percebe que ali não há relativismo, mas um rigor insuportavelmente delicioso de ler.
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Ensaios de literatura ocidental
Erich Auerbach
Editora 34, 2012
384 páginas
As flores do mal
Charles Baudelaire
Penguin-Companhia, 2019
656 páginas






Mais uma excelente sugestão e revelação literária de Diogo Chiuso/NEIM.