#Literatura: Arrume um emprego
O trabalho, além de dignificar o homem, alimenta a imaginação dos escritores
Em Cartas a um jovem poeta, Rainer Maria Rilke não entrega ao jovem Franz Kappus a ilusão romântica de que a poesia bastaria para sustentar uma vida. Antes de tudo, pede-lhe que pergunte a si mesmo, no silêncio mais íntimo, se precisa escrever; mas também o reconduz à realidade: é possível ter uma profissão, aceitar um ofício, suportar a disciplina cotidiana, e ainda assim preservar dentro de si a chama secreta da criação. Em palavras mais rudes: arrume um emprego, assim tua arte jamais será corrompida pelo monstro dos boletos.
Essa talvez seja uma das verdades menos ornamentais da literatura. O escritor, antes de tornar estátua em praça pública ou nome de rua ou alameda, foi alguém que precisou ganhar o pão de cada dia. A literatura nunca começa com glamour – e hoje em dia, talvez, nem termine. Exceto os herdeiros ou os nepobabies, a vida do escritor comum, ordinário, é com a barriga no balcão, na trincheira do dia a dia ou, na melhor das hipóteses, num escritório cinzento cheirando a nicotina.
James Joyce, por exemplo, não escreveu apenas a partir de Dublin, ainda que Dublin nunca tenha saído dele. Houve um Joyce bancário por mais ou menos 8 meses deslocado em Roma, medindo o tempo entre papéis, contas alheias e expedientes burocráticos. Enquanto a cidade estrangeira o afastava da Irlanda, a memória lhe devolvia Dublin com mais força. Talvez seja assim que certos livros nascem: da distância, do exílio, da inadequação. Vai saber. O homem civil atende ao banco; o escritor, em silêncio, inspira-se na musicalidade da língua. Por trás do bancário de 8 meses e meio, já existia o autor de Ulisses, para quem, num único dia, fez conter uma civilização inteira.
Vladímir Nabokov, por sua vez, um herdeiro clássico – e filho preferido, dizem. Teve uma infância quase perfeita, não fosse a revolução comunista que obrigou sua família burguesa a fugir da Rússia. Acabou exilado em Cambridge, literalmente caçando borboletas, antes de vagar pelo resto da Europa e também Estados Unidos. As palavras sempre o perseguiram, desde a sua adolescência em São Petersburgo, então, a zoologia deu lugar ao estudo das letras. A memória já me trai, mas estou certo de que algum biógrafo deve ter dito que a entomologia não foi um capricho lateral na vida de Nabokov, mas uma escola do olhar. Quem observa asas, nervuras, metamorfoses e mínimas variações de cor em borboletas, aprende que o mundo sempre se esconde nos detalhes. O cientista e o romancista tem alguma semelhança: ambos classificam e descrevem, ambos desconfiam da aparência, ambos sabem que uma forma delicada pode guardar perigo. Talvez Lolita tenha escandalizado o mundo porque Nabokov compreendia, como poucos, a beleza e a armadilha das metamorfoses humanas.
T. S. Eliot também conheceu o peso das horas úteis. Antes de se tornar uma das vozes decisivas da poesia moderna, como Joyce, passou num tempo como funcionário de um banco em Londres. Há algo de profundamente moderno nessa imagem: o poeta vivenciando o tédio da contabilidade e da névoa financeira da cidade, contemplando, ao mesmo tempo, a secura interior dos homens. O expediente de segunda a sexta e um sábado por mês num porão escuro, não foi capaz de destruir sua poesia. Pelo contrário, deu-lhe, talvez, uma consciência mais aguda da vida fragmentada, da alma administrada, da espiritualidade soterrada sob papéis e relógios. O banco não era a poesia de Eliot, mas ajudou a compor a Terra devastada onde sua poesia pôde ouvir passos.
Tolstói veio de outro cenário: não o escritório, mas a guerra. Antes de se entregar inteiramente à literatura, serviu o exército, no Cáucaso, na Crimeia, no front. Ali, onde a vida é reduzida à sua forma mais extrema, aprendeu que nenhuma ideia abstrata vale muito se não atravessa o corpo. A guerra lhe mostrou o horror, a grandeza, a contradição, a consciência moral. Depois, quando escreveu sobre famílias, impérios, batalhas, culpa e redenção, não falava apenas como quem imagina: falava como quem vira o homem em Guerra e Paz, diante do medo, da morte e da vaidade.
No Brasil, Machado de Assis talvez seja a prova mais elegante e mais severa dessa mesma verdade. Antes de ser o bruxo do Cosme Velho, foi aprendiz de tipógrafo, homem de imprensa e funcionário público. Tornou-se um observador paciente da engrenagem social brasileira. A repartição pública, longe de sufocar sua ironia, talvez a tenha ampliado. Foi onde Machado aprendeu a ver os homens em seus gestos calculados, suas pequenas ambições, seus silêncios interessados. Da burocracia e da vida urbana ele extraiu uma metafísica da dissimulação. Seus personagens parecem nascer justamente desse olhar de quem conhece a superfície respeitável das instituições e, por baixo dela, o teatro íntimo das conveniências humanas.
E toda essa conversa serve apenas para dizer que as dificuldades se vencem com tempo e constância. O emprego, que alguns jovens escritores temem como inimigo da literatura, é o laboratório de experimentações da literatura. O ofício cotidiano disciplina o olhar, aproxima o escritor da experiência e da fala comum, além de obrigá-lo a conviver com os tipos humanos dos mais esquisitos que nenhuma criatividade ficcional é capaz de inventar. A vida prática fere, cansa, interrompe; mas também oferece cenas, ritmos, humilhações, desejos, máscaras. Minha pátria é o mundo, dizia Sêneca.
Se você gostou deste texto, ASSINE o NEIM e compartilhe o nosso conteúdo.
Ajude a ampliar cada vez mais o nosso trabalho.



