#Literatura: Barba ensopada de sangue, de Daniel Galera (2)
O maior mérito do livro de Galera reside exatamente no manejo do tempo
Parte 2
Uma das qualidades de Barba ensopada de sangue é o grau de realismo com que Galera retratou Garopaba, e através dela, o Brasil, sem ranço historicizado, com o detalhe regional a funcionar como cenário e não como fator excludente. O Brasil urbano de várias faixas etárias enxergou a si próprio nessa cidade de veraneio, inclusive nas mensagens de texto, gravações de secretária eletrônica e referências ao google, derrubando especulações de que isto alienaria o leitor culto. O argumento de que a referência a esses recursos tecnológicos tornariam a obra datada não se sustentou, não mais do que se sustentaria dizer que A tempestade, de Shakespeare, é obra datada, já que o barco descrito é arcaico.
Nas resenhas publicadas no exterior, Garopaba é enxergada não através de um telescópio que mira o Brasil, mas como uma imagem projetada sobre uma esfera giratória de pequenos espelhos, cada espelho uma cidade litorânea em algum canto do mundo, seja na costa da Carolina do Sul, em Dorset, ou Arendal. O romance de Galera não tem sido visto como amostra do exotismo brasileiro (ufa!), muito antes ao contrário. Alusões ou até referências diretas no próprio texto a gigantes como Borges e Camus favorecem essa leitura ubíqua e atemporal. Camus levanta a cabeça quando lemos que a sensação de vazio que (o protagonista)busca está dormente dentro dele, ou quando o nadador existencialista-materialista tenta equilibrar livre arbítrio e determinismo, como lembra Malcolm Forbes, do The Millions. Em um toque de várias chaves, Galera revela através de um diálogo com Dália, uma das namoradas do protagonista, a cratera existencialista causada pela prosopagnosia:
Se eu passasse a noite aqui tu não receonheceria o meu rosto de manhã?
Sinceramente? Não.
Tu é a única pessoa no mundo com uma boa desculpa pra isso.
Ela deixa a lata vazia no peitoril e se vira para ele.
Mas será que não ia reconhecer mesmo?
Nunca aconteceu.
Nem se fosse uma noite muito, muito boa?
Não vou te dar falsas esperanças, Dália.
O que seria da gente sem falsas esperanças?
Um aspecto muito discutido da obra refere-se às inúmeras, detalhadas descrições do ambiente ou dos personagens, que não parecem ter função no enredo. Essas descrições são necessárias, indispensáveis até, considerando que refletem a maneira do protagonista, limitado por sua deficiência neurológica, enxergar o mundo ao redor. Já que não consegue ater-se aos rostos de seus interlocutores, registra tudo mais no ambiente: o piso, as paredes, texturas, cheiros sensuais ou repugnantes, assimetrias, fragmentos.
Segue o Bonobo até o quarto. Um novelo monstruoso de travesseiros, lençóis, cobertores e peças de roupa suja cobre o colchão de casal na pequena cama de madeira. O chão está oculto por baixo de uma camada de cuecas, toalhas, camisetas, bermudas e um long de neoprene preto. A fragrância reinante é de secreções humanas rançosas, incenso, e roupas molhadas esquecidas dentro de uma sacola. [...] A escrivaninha está completamente tapada por uma impressora e um notebook de modelo muito antigo, uma televisão LCD pequena... [...] Uma prateleira de parede está curvada pelo peso de algumas dezenas de livros.
Não são trechos utilitários, não para o leitor. O apressado, o faminto por ação-seguida-de-ação vai sentir-se freado nesses trechos, e não por acaso. O controle do ritmo é quase obsessivo, tal qual o protagonista. Não é diferente de um jantar gourmet, onde porções pequenas, com grande apelo estético, são alternadas com longos intervalos em que os comensais se confraternizam, cujo objetivo é prolongar o prazer da degustação. Não vá servir um jantar gourmet a um esfomeado, ou ao glutão que só quer chegar à sobremesa. Esse não vai apreciar o timing do chef, muito menos a folha de grama estrategicamente localizada para compor o visual. Da mesma forma, as descrições aparentemente inúteis nesse romance, precisam ser saboreadas lentamente para que funcionem. Ricardo Piglia, um dos maiores expoentes da literatura argentina contemporânea, falecido em 2017, pinçou com destreza as qualidades do Barba... que o agradou:
Li com muito prazer, capturado pelas tramas abertas e trágicas. Me agradou especialmente o tom musical da prosa e o modo como os diálogos precisos e rápidos servem de contraponto à ação.
Gonçalo Tavares, autor angolano de Jerusalém (Prêmio Saramago e Prêmio Portugal Telecom de Romance) refere-se justamente ao controle da prosa em Barba..., quando afirma que neste romance, Daniel Galera caminha
como alguém que sai de casa sabendo exatamente para onde quer ir. Vai firme, mas não apressa o passo.
A somatória de todas essas técnicas e várias outras ainda não explica o sucesso do romance. Ele vem do tratamento das questões mais profundas e irreconciliáveis do ser humano: a relação com o pai e a busca de um lugar no mundo.
Há apenas dois lugares possíveis para uma pessoa. A família é um deles. O outro é o mundo inteiro.
Como não se solidarizar com um jovem que corta relações com a família em sua busca desesperada por suas origens? É possível rastrear essa questão desde os gregos, passando por Shakespeare, Proust, Musil, mas há algo de urgente, de atual na expressão literária da busca à identidade através do conhecimento do pai e do avô. Para citar apenas duas obras também premiadas, lançadas muito próximos no tempo, há Restauração das horas (Ed. Nova Fronteira, 2011), o romance do jovem Paul Harding premiado com o Pulitzer onde George, um velho moribundo, rememora a infância com seu pai, a quem perdeu cedo, e Diário da queda (Cia. das Letras, 2011), de Michel Laub, autor da mesma geração, editora e grande amigo de Galera, onde um homem de quarenta anos tenta entender seu pai, e para tanto descobre que precisa conhecer melhor a história de seu avô.
Assim como no Barba, nesses outros dois, o protagonista define aos poucos quem realmente é, e entende o que o levou a fazer as escolhas que fez, à luz da herança de perdas de seu pai e avô. Trata-se de uma Chapeuzinho Vermelho do gênero masculino que deixa a segurança da casa da mãe, e armada de uma ingenuidade desconcertante, enfrenta os perigos de uma floresta povoada de demônios emocionais da família da culpa, da vergonha, da deficiência e covardia, para chegar até a casa da Vovó. Sangra, mas sobrevive. Esses 3 romances, com estruturas e linguagens tão diferentes mas com temática paralela, surgiram na contracorrente dos tempos fraturados, de culto ao selfie, quando o patrulhamento do politicamente correto proíbe o apego ao singular. A rota de fuga é a literatura. Só aí um herói pode visitar os mais graves pecados cometidos por seu pai e pelo pai de seu pai sem arriscar ser destruído por um post. Ao olhar para trás, esse protagonista não é vítima de uma memória involuntária, proustiana, e sim o hacedor de si, alguém que sendo cego para parte do que o rodeia, enxerga o mundo abaixo da superfície, como se usasse óculos de visão noturna, nuances de calor e frio, verdade e traição. O tempo é o filtro da verdade.
A felicidade queima o tempo, a tristeza o alonga. Walter Benjamin se arriscou a dizer que toda a ação interna do romance não é outra coisa senão “a luta contra o poder do tempo”, da qual emergem recordações e expectativas. O maior mérito de Barba ensopada de sangue, reside exatamente no manejo do tempo.
Esse cowboy do mar conta a história de todo homem forasteiro de si, que chega a um lugar estranho em sua vida, pela raiva ou para fugir dela, onde não consegue reconhecer ninguém, nem mesmo a si próprio. Todo homem tem um Gaudério dentro de si, que é preciso enfrentar e sangrar.
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Barba ensopada de sangue
Daniel Galera
Companhia das Letras, 2022
456 páginas




