#Literatura: Dom Quixote: o risco de viver as consequências
A vocação humana de Ortega y Gasset e a eternidade literária de Harold Bloom
Dom Quixote começa com uma advertência discreta, quase pedagógica: “La razón de la sinrazón que a mi razón se hace…”. É o tipo de frase que já resolve metade dos problemas antes mesmo da crítica literária começar. Quem insiste em ler o livro como simples sátira nunca entendeu que Cervantes não está zombando da loucura, mas testando a sanidade do leitor. O riso sempre pode ser uma armadilha.
É nesse terreno instável que Harold Bloom e José Ortega y Gasset se encontram, embora venham por trilhas diferentes. Bloom, sempre atento à hierarquia dos deuses literários, declara Dom Quixote um dos atos fundadores do romance moderno, obra que só aceita comparação com Shakespeare. Para ele, Cervantes inaugura personagens que não obedecem ao mundo, mas o reinterpretam. Depois de Quixote, a literatura perde a ingenuidade: passa a saber que é artifício, jogo, consciência de si. O cavaleiro pode apanhar da realidade, mas vence no plano que realmente importa: o da estética literária.
Ortega, no ensaio Meditações de Quixote, puxa o engenhoso fidalgo de volta para a estrada poeirenta. O cavaleiro andante de Cervantes não é um monumento estético, mas um homem que levou a própria vocação a sério demais. Não há apenas imaginação criadora, mas escolha existencial. Quixote não enlouquece, ele decide viver segundo um ideal, mesmo quando a circunstância o humilha.
Por isso a famosa máxima orteguiana “eu sou eu e minha circunstância” encontra no romance de Cervantes sua encenação mais cruel. Quixote é o eu levado ao limite; Sancho, a circunstância que puxa para baixo. A grandeza da história está em não resolver esse conflito, mas em mantê-lo vivo.
O ponto de convergência entre Bloom e Ortega é que nenhum deles aceita Dom Quixote como simples sátira ou paródia dos romances de cavalaria – o que ele também é. Ambos veem ali algo irreversível: Bloom, uma mutação da forma literária; Ortega, uma revelação sobre a realidade humana. Ambos também reconhecem as ambiguidades essenciais do livro: o riso que nunca é puro, a tragédia que nunca acaba. O Quixote que faz rir é também o humilhado; o ideal que ele acredita é o mesmo que o destrói.
É, enfim, um livro sobre o risco de viver a vida e as suas consequências. Como Quixote que “de poco dormir y del mucho leer se le secó el cerebro de manera que vino a perder el juicio”.
A vida é realmente perigosa. O humor não consegue anular a tragédia. Mas a tragédia não consegue eliminar o humor. Quando rimos de Quixote, de certa forma, rimos da tragédia existencial humana – e também da nossa tragédia existencial particular.
Mas Bloom não se interessa muito pelo fracasso histórico de Quixote, porque ele o lê como triunfo estético. O personagem pode perder todas as batalhas, mas vai vencer sempre na literatura. Ortega, ao contrário, insiste no peso da derrota. Para ele, o romance é espanhol demais para ser apenas universal. Ele carrega a melancolia de um país que conserva ideais grandiosos quando já perdeu os meios de realizá-los. A diferença pode ser de perspectiva, mas aqui há uma tensão existencial entre os dois. Bloom tende a livrar Quixote pelo gênio literário; Ortega o mantém preso à vida. E a vida costuma sempre cobrar um preço muito alto.
É o risco de viver as circunstâncias.
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Dom Quixote
Miguel de Cervantes
(Com ilustrações de Gustave Doré)
Editora 34, 2023
1608 páginas
Meditações de Quixote
Ortega y Gasset
Vide Editorial, 2019
160 páginas







