#LIteratura: "Meu passado nazista", de André de Leones
O mais recente romance do consagrado autor goiano é uma trama intensa que entrelaça a vida de três personagens cujos destinos se chocam de maneira abrupta
Parte 1
Até que ponto você é responsável pelos atos dos seus pais? Pergunto até que ponto porque somos, sim, em alguma medida, responsáveis por nossa herança, responsáveis por aquilo que fazemos com ela. Leandro Helfferich, jovem professor de filosofia em Silvânia, Goiás, conviveu com esta dúvida durante muitos anos. Você vai conhecer Leandro intimamente - e bota intimamente nisso - quando ler Meu passado nazista, o mais recente romance de André de Leones, jovem autor goiano premiado, consagrado como inovador da linguagem desde o primeiro de seus 10 romances.
A história de Leandro é narrada por ele mesmo, o que já levanta suspeitas, mas de maneira geral, é um narrador honesto. Não porque honestidade seja um grande valor para ele, mas porque muitos de seus atos que seriam, aos olhos de outros, reprováveis, para ele não são passíveis de julgamento. Ele reserva seu julgamento para os atos dos outros, particularmente de seu avô, de seu amigo Cristian, e da namorada de Cristian, Eleonora. O que sabemos é que Leandro e Cristian são amigos de infância, de convívio quase diário um na casa do outro. Leandro mora com seu avô, porque seu pai foi assassinado e sua mãe destruiu-se lentamente de tristeza após perder o marido. Nunca ouvimos a voz do avô, mas ouvimos o que Leandro diz que o avô dizia. E esse avô está presente o tempo todo na cabeça de Leandro, mesmo - e talvez ainda mais - depois de morto.
O avô era nazista. Não nazista entre aspas, como tantos por aí, já que agora basta você discordar intensamente de qualquer ideia (assim chamada) progressista, que isso te torna um “nazista”. Não, o avô de Leandro foi filiado ao Partido Nazista na Alemanha durante a guerra, e serviu no exército de Hitler com muita dedicação e orgulho. Todos sabemos como operavam os nazistas: reuniam os judeus de qualquer cidade (com o apoio das autoridades, sempre), metralhavam dezenas deles enfileirados à beira de uma vala imensa, e ao final de algumas rodadas, jogavam terra por cima das pilhas de cadáveres e moribundos. O que muitos não sabem é que nenhum soldado era obrigado a fazer esse serviço. Isso está muito bem documentado. Hitler sabia que se obrigasse seus “meninos de estômago fraco” a atirar em velhos, mulheres grávidas, bebês, contra sua vontade, poderia perder o controle sobre eles. Antes de cada execução em massa, uma generosa porção de schnaps era distribuída, e ainda assim, aqueles que não quisessem participar da chacina, podiam se retirar para trás dos caminhões, sem qualquer punição (poucos tiraram proveito desse privilégio). O que Leandro descobre, entre velhos documentos do avô e nos segredos revelados por sua tia Magda, é que ele era daqueles que fazia esse trabalho alegremente, concentrado, eficiente.
Mas era um nazi esperto. Antes do final da guerra, quando todos menos Hitler já sabiam que a Alemanha perdera, o avô fugiu. Adivinhe para onde? Para onde fogem os bandidos: a terra da impunidade. Desde 1943 as Rattlinien, “caminhos dos ratos”, já operavam através de rotas na Itália, Espanha, Suíça, Suécia e Finlândia, com o apoio do Vaticano e da Cruz Vermelha (se em “Médicos Sem Fronteiras” há atiradores de elite do Hamas e operativos da Jihad Islâmica, como veio a público no dia 01 de janeiro, por que a Cruz Vermelha não teria ajudado os nazis?). Eram trazidos em segurança à América Latina. Quase 10.000 nazistas de alta patente refugiaram-se entre o Brasil, Argentina, Bolívia e Chile.
Herr Helfferich não sucumbiu à tentação dos grandes centros, escondeu-se em Goiás. Quem iria procurar nazistas em Goiás? Seu neto também não estava procurando. Foi aos poucos, ao longo de sua infância e adolescência, que foi arquivando na memória flashes, aqui e ali, que insistiam em cutucá-lo com algum incômodo. Um exemplo citado várias vezes por Leandro é a saudação nazista que o pai de Cristian fazia todos os dias, ao chegar em casa, como forma de cumprimentar os garotos que ali brincavam. Todos riam. Leandro, à medida que entendeu o que aquilo significava, foi perdendo a capacidade de fingir que achava engraçado. E ao mesmo tempo, foi ligando os pontos de comentários do avô sobre a ditadura, sobre o que levou os alemães a fazerem o que fizeram, sobre os judeus “merecerem” a Shoah.
Para o leitor, o incômodo também cresce, especialmente porque Leandro repete várias vezes que matou o avô a pauladas, mas não parece que isso tenha aliviado sua raiva. É difícil saber se ele de fato o matou ou se é apenas uma fantasia recorrente, porque há muitas delas no romance. São episódios que beiram o inverossímil: maldades absolutamente gratuitas, traições graves entre melhores amigos, atos sexuais que variam do consentimento à crueldade psicótica, uma pletora de transgressões que não parecem ter qualquer objetivo se não o do prazer do transgressor. Coloque aí algumas colheradas de humor, e você terá uma ideia de como é contada esta história. Para saber o que é contado você terá de ler a segunda parte deste ensaio, na próxima segunda-feira. E para saber por que é contado, você precisa participar do Não É Clube do Livro, já que em fevereiro vamos discutir o livro e em março vamos bater um papo com o autor. Ainda dá tempo de se inscrever!
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Meu passado nazista
André de Leones
Record, 2025
364 páginas






Muito obrigada, Vivian, pelos seus comentários sempre elevados e inteligentes, mesmo quando você é desafiada pela agressividade do conteúdo do livro. Aguardo com interesse e curiosidade os próximos posts sobre Meu Passado Nazista.