#Literatura: "Meu passado nazista", de André de Leones(2)
O livro do do consagrado autor goiano perturba as emoções do leitor com o tema da perversão tratado com uma precisão linguística e detalhamento histórico
Parte 2
Leandro Helfferich, o narrador de Meu passado nazista, não é flor que se cheire. É um rapaz inteligente, de olho crítico e alguma capacidade para autocrítica, mas prefere iluminar as fraquezas dos outros. Tudo começa pelo meio: ele, em um carro com o amigo Cristian, estacionados em frente a uma casa em reforma no meio do mato. Cristian brande uma arma e ameaça assassinar a namorada, Eleonora e um fulano qualquer com quem ela, bêbada, topou ir de um bar a esta casa, arrastando junto uma prima, na expectativa de um ménage à trois. Enquanto Cristian repete, entre soluços, que vai matar os dois, revela a Leandro que foi a prima que acabou fugindo da tal casa antes de chegar a vias de fato, deixando Eleonora e o sujeito lá para exercerem seu direito a tudo que suas cabeças embebidas em álcool inventassem.
Leandro é a voz da razão. Insiste que Cristian desista do plano. Mas enquanto argumenta, expõe as fraquezas de Cristian: advogado desimportante filho de alguém importante na cidade, de quem pegou a arma, e, conforme descobrimos, do mesmo que saudava os meninos com um alegre Heil, H, ao chegar em casa todos os dias. Ou seja, Cristian não presta, seu pai não presta, Eleonora não presta, e a prima delatora... mais ou menos. Leandro narra tudo isso de uma posição de nobreza moral. Afinal, só ele parou de achar graça na manifestação nazista do pai de Cristian; só ele enxerga que assassinato é ir longe demais; ele é muito mais sofisticado, maduro, equilibrado do que Cristian, ainda que do ponto de vista profissional, não seja lá tão independente. Ele até prepara uma justificativa para a traição de Eleonora, para iludir o leitor mais à frente. Os “fatos” são narrados de forma muito inteligente, ora pelo fluxo de pensamento do personagem, ora por discurso indireto livre, ou seja, um diálogo onde ouvimos a voz do interlocutor através do pensamento do narrador.
Ao final, Cristian não mata ninguém, inclusive porque isso iria interromper a trama antes de contar o que André de Leones realmente quer contar. Sem spoilers, posso adiantar que Cristian é um de muitos nesta sociedade goiana (leia-se brasileira) que gosta de tirar vantagem em tudo. Ele acaba aceitando a traição de Eleonora (a que ele sabe, porque há outras) em nome do amor, e ela aceita Cristian apesar da babaquice e falta de jeito na cama, em nome do amor. Mas ninguém ali nunca amou ninguém exceto a si próprio. Sobem na vida às custas de um apurado senso de oportunismo, essencial para quem orbita ao redor de políticos - avisei que é do Brasil que se trata o livro, não avisei? Acabam se mudando para Brasília, depois para o Rio, onde Leandro, o amigo supostamente fiel, sempre os visita.
Um dos motes do livro é que tudo tem um preço. A hospitalidade de Cristian a Leandro em seu fabuloso apartamento no Rio é paga, com prazer, a Eleonora. A ingenuidade de uma doce prostituta é paga a Cristian pelo prazer que ele tem ao destruir tudo (que é quase nada) que ela possui. A admiração apaixonada de uma aluna por seu professor é paga com o engodo. O homem é o lobo do homem. Leandro leva o leitor pelo cabresto da credulidade. Quando parece que finalmente nos deparamos com um personagem bom, prestes a um ato de generosidade, vem um violento soco no estômago. O autor arrasta o leitor por aquilo que o homem tem de pior a oferecer. Como tudo acontece em um ambiente impregnado pelos fascistas-golpistas-bolsonaristas-destruidores-do-Brasil-que-ia-às-mil-maravilhas-até-então, fica fácil saber a quem culpar. O próprio André de Leones, em algumas entrevistas, salienta como ficou incomodado com o radicalismo na época da eleição de Bolsonaro, a quem atribui essa responsabilidade. Só não oferece explicação pela radicalização que vem ocorrendo no mundo todo. Será que há uma causa mais profunda, mais bem financiada e organizada que explique o avanço desse processo, que tanto contribui para a degradação dos valores da democracia e liberdade individual? Apesar de não ser um livro político no sentido pobre da palavra - não é um panfleto - a insistência do narrador em “descobrir cripto-bolsonaristas” não pode ser ignorada.
Leandro tem um fantasma com quem luta dia e noite: o nazismo de seu avô. Tudo que Leandro preza é avaliado pela balança do nazismo. São muitas as referências, o que indica, no mínimo, um grande conhecimento do assunto por parte do autor. Certamente deve ter lido os grandes historiadores da Shoah, o que já é inusitado fora dos círculos diretamente envolvidos, sejam judeus ou historiadores interessados naquela catástrofe. O foco de Leandro não é “como aquilo pôde acontecer?” e sim como seus heróis pessoais lidaram com aquilo. Heidegger é um dos alvos de questionamento de Leandro. Para dar a noção da importância desse filósofo na cabeça de Leandro, ele conta que publicou um livro bastante autoficcional (gênero que ele próprio desdenha) onde incluiu um colega a quem “acusa” de ser “derridiano”, ou seja, um admirador de Derrida, contrário ao pensamento essencial de Heidegger. Como meu conhecimento do assunto é tão grande quanto deve ser o de André de Leones sobre o vanádio no sangue das Ascidias, assunto que eu domino, recorri à Inteligência Artificial, com certeza muito maior do que a minha, para saber qual é a diferença. Eis o que descobri:
Heidegger concentrou-se no Ser (Sein) dos entes e na diferença ontológica entre Ser e entes, visando superar a metafísica por meio da Destruktion (destruição) da história, enquanto Derrida, partindo de Heidegger, desenvolveu a desconstrução, criticando a “presença” da metafísica com différence, enfatizando os vestígios, a escrita (écriture) e o indecidível, argumentando que a tecnologia é originária, não um estágio posterior. Em essência, Heidegger buscava o significado original do Ser, enquanto Derrida mostrou como todo significado, incluindo o Ser, é inerentemente diferido e inscrito na linguagem.
Tenho certeza que alguns de vocês dirão, elementar, minha cara Vivian. Para aqueles que não estão pensando assim e continuam perdidos, se serve de consolo, é possível ler e entender Meu passado nazista independente do domínio da filosofia (o autor que não me ouça). É simples: o ex-colega de Leandro que se vê retratado no livro e ofende-se pela referência derridiana recorre a medidas extremas para provar que a imagem não lhe corresponde. Isso diz muito sobre o autor: ele criou um personagem-narrador-escritor (obviamente ficcional), que em um de seus livros inclui um personagem (de novo, ficção) inspirado em um colega seu da vida real ficcional, e enquanto lê, você vê esse personagem tomar forma humana e defender-se do insulto imaginário. E tudo com a maior naturalidade. É uma manobra de fazer inveja a Alexandre de Moraes em sua capacidade de persuadir o leitor que a ficção é real, só que André de Leones não tira nada do leitor, ao contrário, dá a oportunidade para pensar.
O recurso metaliterário, isto é, contar a história através de uma história dentro dela, é muito bem executado, a ponto de o “autor” incluir “resenhas” no próprio romance. Leandro também escreve um conto que é lido em um apartamento de uma conhecida sua, perante um grupo de amigos dela que mal imaginam o que lhes espera. O conto chama-se “Konzentrationslager” (”Campo de concentração”). Prepare-se. Trata-se de um parque temático nazista imitando até os menores detalhes tudo aquilo que nem Dante conseguiu imaginar:
Os donos do parque pensaram em tudo. Além das cercas de arame farpado e da aparência dos barracões, havia torres de vigilância, holofotes, fardas completas, conforme as nossas respectivas patentes e armamento. A munição era de mentira, mas cada Luger, Walther, Mauser, Sauer, Dreyse [...] Meus aposentos incluíam um banheiro privativo com banheira e além da cama de casal, uma bela escrivaninha de mogno, uma poltrona confortável de couro bege [...] livros (nazistas) diversos em alemão escritos originalmente nessa língua ou traduzidos para ela [...] Sobre os prisioneiros, eles eram todos anoréxicos. Sim, a anorexia era uma espécie de pré-requisito para a função, isto é, para que fossem contratados e trabalhassem no campo, desempenhando aquele papel [...] Assim, os atores contratados para interpretar (viver?) os prisioneiros-prisioneiros eram pessoas macérrimas, de 13 a 68 anos, passaram por uma espécie de treinamento, tiveram a cabeça raspada e eram obrigados a sobreviver nas piores condições possíveis.
O que é feito com esses prisioneiros neste parque temático parece extraído de Casa de bonecas, livro de memórias (mais tarde questionadas) de K. Tzetnik, sobrevivente de Auschwitz, publicado em 1953. Tzetnik fez descrições brutais, perturbadoras, de violência sexual que ocorria no bordel do campo, mantido para o divertimento dos oficiais. O livro é considerado a origem de um gênero de ficção vulgar chamado “Stalag fiction”, uma série de cenários de sexo sádico nos campos nazistas, publicados em fascículos. Há gosto para tudo. Um livro deve ser julgado pelo seu potencial em perturbar o leitor, seja uma perturbação agradável, como ternura, positiva, como empatia, ou incômoda, como revolta. Será considerado um objeto de arte se a emoção que causar for resultado da leitura ou de reflexão sobre o livro. Quando cenas de tortura, por exemplo, em vez de causar indignação (ou até náusea) servirem como um estímulo, ou cenas de sexo explícito forem motivo de curiosidade pelo ato concreto, chama-se pornografia. E onde fica a fronteira entre os dois? Para cada leitor, e para cada época da vida, essa fronteira se modifica. Para se proteger legalmente de acusações de pornografia, muitos autores “alertam ao perigo dos gatilhos”, ou seja, avisam que há no livro pontos que podem causar emoções tão extremas que levam o leitor a causar dano a si ou a outros. Vou reservar no momento minha opinião desta nossa sociedade que vive sob a ameaça de “gatilhos” literários, cinematográficos, até olfativos. Tudo pode ser um gatilho. Em Meu passado nazista, o tema da perversão (cometi o crime do politicamente incorreto?) é tratado com tal detalhe, tal precisão linguística e histórica, que indica muito mais a intenção de perturbar as emoções do leitor do que remotamente incentivar sua curiosidade (ou pior). Vou deixar para cada um a decisão de como classificar o romance de André de Leones. O que sei com certeza é que ele tem absoluto controle do que incluiu em cada página, nada está ali sem um propósito. No mínimo, é uma afirmação da liberdade do autor em abordar o que quiser da forma que quiser.
Mas há mais do que isso. Na parte 3 deste ensaio você irá saber o que Georges Bataille, Vladimir Nabokov e Philip Roth têm a ver com André de Leones, e talvez ficará um pouco mais claro quais eram suas intenções ao contar a história desta forma.
Em fevereiro vamos discutir o livro no Não É Clube do Livro, e em março teremos oportunidade de tirar todas as dúvidas diretamente com André de Leones. Junte-se a nós, ainda dá tempo!
Meu passado nazista
André de Leones
Record, 2025
364 páginas





