#Literatura: Montaigne e a arte de pensar
Nos "Ensaios", ele transforma a instabilidade da vida em método de pensamento
Ler Montaigne hoje é confrontar um paradoxo: um autor frequentemente considerado difícil, distante e erudito revela-se, na verdade, um dos mais próximos intérpretes da experiência humana. Seus Ensaios, com sua forma fragmentária e cheia de digressões, parecem resistir à leitura apressada. No entanto, é justamente nessa recusa de linearidade que reside sua força: Montaigne não pretende ensinar verdades, mas acompanhar o movimento incerto do pensamento.
Escrevendo em meio às guerras religiosas do século XVI, ele testemunhou um mundo dilacerado por certezas absolutas. Sua resposta não foi a construção de um sistema, mas a adoção do ceticismo como método. Diante da violência produzida por convicções inabaláveis, Montaigne escolhe a dúvida como forma de lucidez. Seu célebre “Que sais-je?” (O que sei) não é um gesto de ignorância, mas de prudência intelectual — um reconhecimento dos limites humanos diante da complexidade do real.
Essa postura está profundamente ligada à sua vida. Educado de maneira humanista e incomum, habituado desde cedo à liberdade intelectual, Montaigne desenvolveu uma aversão às imposições rígidas e às verdades dogmáticas. Sua experiência como magistrado e político reforçou essa visão: ao observar os conflitos de seu tempo, percebeu que a razão, quando capturada por ideologias, pode se tornar instrumento de barbárie. Sua retirada para a vida privada não foi fuga, mas uma tentativa de compreender o mundo a partir de si mesmo.
Os Ensaios nascem desse gesto: escrever como quem pensa, e pensar como quem experimenta. Não há um sistema fechado, mas um processo contínuo de revisão e autoconhecimento. Montaigne transforma a própria instabilidade em método, fazendo do “eu” um campo de observação onde o humano se revela em suas contradições. Ao falar de si, ele fala de todos — não por generalização, mas por reconhecimento da condição compartilhada.
Em tempos igualmente marcados por excesso de certezas, polarizações e ruído, Montaigne oferece uma alternativa rara: a inteligência que hesita, o pensamento que pesa antes de afirmar, a liberdade que nasce da consciência dos próprios limites. Ler Montaigne não é encontrar respostas, mas aprender um modo de olhar — mais atento, mais tolerante e menos arrogante diante da complexidade do mundo.
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Ensaios
Michel de Montaigne
Editora 34
1032 páginas






A leitura dos Ensaios de Montaigne é uma apreciação, nada de pressa. Gostei do artigo.