#Literatura: "O Dom", de Vladimir Nabokov
Um romance onde a escrita se torna personagem
Em O Dom, obra que o próprio Vladimir Nabokov afirmava ser a melhor que escreveu em língua russa, a literatura surge como exercício de precisão extrema. Cada frase parece trabalhada como se fosse definitiva, consciente de si e do lugar que ocupa numa tradição literária muito exigente. Não se trata apenas de narrar uma história, mas de demonstrar que a escrita pode refletir sobre si mesma, com ironia e rigor. O romance avança menos por acontecimentos do que por lampejos de consciência, memórias e desvios calculados, sugerindo que o verdadeiro enredo é o próprio ato de criar.
O protagonista, um jovem escritor em formação, vive num mundo de exílio onde a pátria não é um território, mas uma memória estilizada. Berlim surge como um espaço quase fantasmagórico, habitado por sombras de uma Rússia perdida, recriada não apenas pela nostalgia sentimental do autor, ele mesmo apátrida, mas pelo rigor estético. Nesse cenário, a vida cotidiana, com quartos alugados, conversas literárias e amores hesitantes, ganha densidade simbólica, como se cada detalhe carregasse o peso de uma tradição inteira.
No coração do livro, Nabokov insere uma biografia satírica que funciona como provocação e desafio. O livro dentro do livro interrompe o fluxo narrativo para lembrar ao leitor que a literatura também é combate: contra ideias fossilizadas, contra a mediocridade travestida de virtude, contra a leitura preguiçosa. É um momento de risco calculado, em que o romance se expõe, consciente de que perderá alguns leitores no meio do caminho, para agradar os outros mais atentos, mais pacientes, mais apaixonados pela própria literatura.
Há, porém, uma delicadeza constante que equilibra a erudição. A relação entre o filho e o pai ausente, reconstruída por meio de poemas e lembranças, confere ao texto uma emoção contida, quase secreta. Nabokov evita o sentimentalismo, mas permite que a perda e a admiração se infiltrem na prosa, criando uma ternura discreta, sustentada mais pelo silêncio do que pela declaração explícita.
O Dom, enfim, revela-se menos como um romance sobre amadurecimento e mais como uma afirmação de fé na arte. A dádiva do título não é apenas o talento do protagonista, mas a própria possibilidade de transformar a experiência em forma. É uma obra que não se revela de imediato, mas que recompensa generosamente quem persevera na leitura atenta e vai desfrutando gradativamente de um certo prazer intelectual ao descobrir as nuances literárias espalhadas pelo texto.
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O Dom
Vladmir Nabokov
Alfaguara, 2017
384 páginas





Ammmmo Nabokov. Quando fico muito irritada com as notícias, me "trato" relendo a frase de abertura de Lolita (e muitas vezes não consigo parar aí). Recomendo o trecho de audiobook com Jeremy Irons narrando: https://www.google.com/search?q=lolita+audiobook+jeremy+irons&sca_esv=9dc7e18fe08ca235&rlz=1C5CHFA_enBR1056BR1056&udm=7&biw=1465&bih=735&aic=0&sxsrf=ANbL-n4ZNWPWJJ4S_P1f6mkYnV8j_ydGwA%3A1769272290714&ei=4vN0abekK4ef5OUPhYauoA0&oq=lolita+audio&gs_lp=EhZnd3Mtd2l6LW1vZGVsZXNzLXZpZGVvIgxsb2xpdGEgYXVkaW8qAggAMgsQABiABBiRAhiKBTIFEAAYgAQyBRAAGIAEMgUQABiABDIFEAAYgAQyBRAAGIAEMgUQABiABDIFEAAYgAQyBRAAGIAEMgUQABiABEjVMVC5C1i9IXAEeACQAQCYAZ0BoAG9CKoBAzAuOLgBAcgBAPgBAZgCCqAC0wfCAgYQABgWGB7CAgUQABjvBcICCBAAGIAEGKIEwgIJEAAYFhjHAxgemAMAiAYBkgcDMy43oAfTJbIHAzAuN7gHyAfCBwUwLjMuN8gHJoAIAA&sclient=gws-wiz-modeless-video#fpstate=ive&vld=cid:e456e609,vid:inxiWyRZBdI,st:0
Obrigado.