Não É Imprensa

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#Literatura: Rebentar, de Rafael Gallo (1)

Em seu excelente romance de estréia, o autor é corajoso ao abordar um tema de enorme carga emocional sem medo do fantasma do sentimentalismo

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Vivian Schlesinger
jun 01, 2026
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Parte 1

Quando uma criança desaparece os pais param de respirar. De início mobiliza-se todas as possibilidades de busca. A família fica em estado de suspensão. O tempo é congelado nos mínimos gestos: o quarto da criança permanece intocável; em um acordo tácito, fica proibida qualquer demonstração de alegria, até um breve sorriso é alvo de autocensura. O mundo continua seu percurso celeste lá fora enquanto dentro da casa há só neblina. Mas por quanto tempo um pai ou uma mãe podem ficar sem respirar?

Não há dor maior do que a perda de um filho, mas perder um filho e não poder sepultá-lo condena os pais à morte todos os dias. Há cem mil anos o homem encontra algum consolo nos rituais de velar e enterrar seus mortos, ainda que seja apenas por um túmulo que dê a sensação de presença. Duas obras centrais da literatura mundial dão ideia da importância desses rituais. Na peça Antígone, de Sófocles, a personagem-título desafia seu tio, o rei Creon, ao exigir que o corpo de seu irmão Polyneices seja enterrado e não condenado a apodrecer, pena aplicada aos traidores de estado. A insistência de Antígone acaba custando sua própria vida. O romance Finnegan’s wake (literalmente, ‘O velório de Finnegan’), de James Joyce, empresta seu título de uma famosa balada irlandesa na qual Finnegan parece estar morto após uma queda por bebedeira monumental. No velório, seus amigos bebem muito e espirram whisky sobre o defunto, que aí volta à vida e junta-se à festa. Em Antígone, a obrigação de enterrar o morto está acima da vida, e em Finnegan’s Wake, o ato de velar tem o poder simbólico de ressuscitar o morto. Um filho insepulto é uma angústia incurável porque o desfecho é parte imprescindível da cura.

O jovem escritor paulistano em 1981, que vive atualmente em Lisboa.

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