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#Literatura: Um escritor que ressuscita em palavras (3)

Mainardi se refugia na arte, especificamente na arte de morrer

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Vivian Schlesinger
abr 20, 2026
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Parte 3

Família é uma das obras primas da natureza, dizia George Santayana. Em Meus mortos, um autorretrato (Record, 2025) Diogo Mainardi associa histórias de sua família a obras primas dos maiores artistas do século 16 e 17, mas ao ler e reler o livro, me vem à cabeça a frase de abertura mais famosa da literatura: todas as famílias felizes são iguais; cada família infeliz é infeliz à sua maneira. Meus mortos é um exercício de infelicidade. É ao mesmo tempo uma imersão no ar denso de arte de Veneza, um abrir de feridas na esperança que elas finalmente cicatrizem, e um voo de muitas escalas por alguns dos mais belos quadros jamais pintados. Tudo muito triste, porque é passado.

Se eu pudesse propor uma trilha sonora para o livro, seria o Intermezzo da ópera Cavalleria Rusticana, de Pietro Mascagni. É provavelmente o intermezzo mais ouvido de todos, talvez até já tenha sido música de elevador, mas nem por isso menos triste. A ópera conta sobre um quadrado amoroso que acaba mal, daí o título, que significa “cavalheirismo rústico”, ou seja, justiça pelo duelo. Santuzza, a mulher seduzida e abandonada, acaba de revelar ao carreteiro Alfio que Lola, sua esposa, o trai com Turiddu, amado de Santuzza. Ela agora se dá conta que Turiddu, infiel, sim, mas ainda muito amado, será morto. Da matéria dessa angústia são feitas as notas do intermezzo. Ela caminha com o fardo da perda que virá, pelas ruelas poeirentas da Sicília, onde se passa a história. Mainardi caminha pelas ruas vazias de Veneza — aqui, a poeira é da História — com o fardo da perda que já foi. Mas diferente de Santuzza, que sofre pelo futuro que não será, Mainardi sofre pelo passado que não foi.

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