#Livro: “Brincando de Deus”, de Beth Shapiro
Como 50 mil anos de inovações humanas definiram – e redefiniram – a natureza
Há livros de ciência que se oferecem como manuais de consulta; outros, como manifestos futuristas. Brincando de Deus, de Beth Shapiro, prefere um caminho bem diferente, e justamente por isso mais interessante: a de uma narrativa que, ao mesmo tempo, consegue explicar, argumentar e também incomodar.
Traduzi a obra em 2023 para a editora Contexto e me surpreendeu a habilidade da autora, uma bióloga molecular evolucionista da Universidade da Califórnia, de lidar com um tema complexo sem recorrer ao hermetismo. Sua clareza não empobrece a ambição. Pelo contrário, sustenta uma tese provocadora numa época de ambientalismos extremos: a de que o ser humano, desde os primórdios, vem aprendendo a moldar e remoldar a natureza para criar o mundo em que habita.
Brincando de Deus
Beth Shapiro
Ed. Contexto, 2023
352 páginas
Desde as primeiras páginas, o livro avança uma proposição deliberadamente incômoda: a noção de uma “natureza intocada” é um mito funcional. O ancestrais humanos já escolhiam sementes, domesticavam animais, reconfiguravam ecossistemas e, consequentemente, desviavam cursos evolutivos. A biotecnologia contemporânea — com CRISPR, gene drives e DNA antigo — surge menos como ruptura do que como continuação acelerada e tecnicamente precisa de um gesto ancestral.
Nos capítulos centrais do livro, Shapiro organiza sua argumentação como uma história em dois tempos. A primeira parte reconstrói, em chave evolutiva, a longa tradição humana de intervenção sobre outras espécies, passando pela predação, pela domesticação e, mais recentemente, pela conservação — estágios em que aprendemos a caçar, criar, selecionar, extinguir e, quando já era tarde, tentar proteger. A partir de exemplos que vão do DNA antigo à expansão humana pelo globo, da agricultura ao nascimento do conservacionismo, a autora mostra que a ideia de “deixar a natureza como ela é” sempre conviveu com práticas intensivas de transformação.
Na segunda parte, voltada ao presente e ao futuro, as biotecnologias aparecem como o próximo capítulo dessa mesma história: ferramentas capazes de acelerar processos evolutivos, redesenhar espécies e responder a um planeta que já opera no limite. Para Shapiro, o erro não está em reconhecer esse poder, mas em fingir que ele surgiu de repente. Ela defender que a engenharia genética não inaugura nossa ingerência sobre a vida, apenas a torna mais explícita, mais rápida e impossível de ignorar os seus benefícios.
É também aí que se concentram as críticas. Muita gente – eu, inclusive – acha que o livro deposita confiança demais na promessa tecnológica. É verdade que Shapiro reconhece riscos, dilemas éticos e zonas de incerteza, mas consegue concluir, de forma categórica e sem muita dificuldade, que se tudo for bem regulado (pelo STF? Não, brincadeira!), as ferramentas de biotecnologia deveriam ser amplamente aceitas porque são necessárias e irreversíveis para o nosso futuro.
Outro ponto que virou polêmica é a tendência da autora em atribuir a oposição à biotecnologia ao medo ou à ignorância, algo que simplifica discussões legítimas sobre governança, desigualdade, poder corporativo e efeitos imprevistos. Para Shapiro, a pergunta “podemos fazer?” acaba sendo mais importante do que “quem decide?” ou “quem assume os riscos?”.
Mas estas são inquietações típicas de países desenvolvidos. No Brasil, em que boa parte da população já se recusa a tomar vacinas, e onde os terraplanistas costumam vencer os debates sobre Terra Plana, um livro que caracteriza os opositores da biotecnologia como ignorantes não está muito longe da realidade. Ainda mais com a ignorância invencível dos nossos governantes que impede não apenas a pergunta “podemos fazer?”, mas chega a causar calafrios ao imaginar quem decide ou quem assume os riscos.
Brincando de Deus
Beth Shapiro
Ed. Contexto, 2023
352 páginas





