#Livros: A esquerda não é Woke, de Susan Neiman
O livro que tentou separar conceitos e acabou dividindo leitores
O livro A esquerda não é Woke, de Susan Neiman, chegou ao debate público como quem entra numa sala já tomada por gritos. Não entrou ali para apaziguar, mas para mudar o vocabulário da briga.
Trata-se de um livro curto, direto e deliberadamente provocador, escrito por alguém que se recusa a escolher entre dois rótulos que hoje parecem exaustivos: o da esquerda ressentida e o da direita moralmente inflamada. Neiman não escreve para agradar, escreve para separar, como quem tenta traçar algumas linhas num terreno já cheio de trincheiras.
Os elogios mais recorrentes veem nesse gesto uma virtude rara. Críticos simpáticos ao livro destacam sua defesa do universalismo moral, da ideia de justiça que não depende de pertencimento ideológico nem identitário, mas de princípios humanos comuns. Nessa perspectiva, A esquerda não é Woke funciona quase como um resgate arqueológico: lembra que a esquerda nasceu falando em humanidade, progresso e emancipação, e não em tribunais morais, hierarquias de sofrimento e cultura de cancelamento. Neiman é uma esquerdista old school.

A clareza da escrita também é elogiada: filosofia sem pedantismo, capaz de circular fora da academia, o que explica parte de sua ampla circulação entre leitores que se sentiam politicamente órfãos.
Mas é justamente onde o livro conquista seus leitores que ele também acumula críticas mais severas. Muita gente aponta a fragilidade do alvo: “woke” aparece como uma sombra difusa, mais sugerida do que definida. Um problema para qualquer um que tenta combater um inimigo escorregadio, nebuloso, que se metamorfoseia constantemente, e que, por isso mesmo, pode enfraquecer a precisão filosófica de qualquer argumentação.
Outra crítica recorrente é que, em certos momentos, a autora se aproxima da caricatura: tradições complexas do pensamento contemporâneo surgem simplificadas, quase como atalhos argumentativos. É verdade. Mas é preciso considerar que se trata de um livro curto, direto e deliberadamente provocador.
O mais curioso é que elogios e críticas convergem num ponto essencial. Quase todos reconhecem que A esquerda não é Woke é um livro corajoso, que abre um debate necessário numa época em que alguns assuntos estão proibidos – principalmente quando se trata de teorias escorregadias, nebulosas e que vivem se metamorfoseando.
De qualquer forma, é um livro importante porque incomoda todo mundo, seja a própria esquerda moderna, que o renega, quanto a direita militante que não parece muito disposta a discutir temas sem apelar para moralismos pseudo-religiosos.
Com A esquerda não é Woke, Susan Neuman não pretende oferecer um novo dogma ideológico, mas levantar uma discussão incômoda: a esquerda ainda tem alguma relevância política, ainda acredita em algo que possa ser útil para todos, ou quer apenas manipular o debate público com palavras de ordem e teorias megalomaníacas que não resistem ao senso crítico?
A resposta parece óbvia. E isso explica porque é um livro importante, e porque foi tão lido e tão combatido.
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A esquerda não é Woke
Susan Neiman,
Editora Âyiné, 2024
240 páginas




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