#Livros: A França contra os robôs, de Georges Bernanos
Quando a eficiência se torna moral e a liberdade vira adaptação
Georges Bernanos é, hoje, um escritor completamente esquecido. Isso poderia ser um escândalo se não vivêssemos numa época em que todo mundo acredita que as ideias surgem do nada e vão para lugar algum.
Quando escreveu A França contra os robôs, não havia automação nem algoritmo e muito menos chatGPT. O livro não nasceu da calma reflexiva, comum aos pensadores da época, mas da urgência de quem percebe que algo essencial já estava sendo perdido, enquanto o mundo já insistia em celebrar seus progressos tecnológicos.
Não se trata apenas de máquinas, fábricas ou engrenagens: o robô de Bernanos é uma metáfora brutal para a transformação do ser humano em peça, em função, em número. A França do título é menos um país do que um último nome possível para o lugar em que o homem sacrificava a sua dignidade.
Em A França contra os robôs, Bernanos reflete em tom de denúncia – e com o deboche característico ide sua retórica. O centro da acusação é claro e incômodo: a civilização técnica não se contenta em facilitar a vida humana, ela passa a querer organizá-la por inteiro. A eficiência torna-se virtude suprema, a produtividade vira critério moral e a liberdade é reduzida a meras escolhas burocráticas-administrativas.
Obviamente, Bernanos não ataca a técnica como ferramenta, mas como ideologia. O perigo não está nas máquinas, mas na submissão voluntária do homem a uma ordem que já não pede consentimento, apenas adaptação.
Há no texto uma fúria que incomoda leitores mais afeitos a diagnósticos assépticos. Bernanos generaliza, exagera, fulmina. Ele sempre foi assim. Nunca se furtou a chamar de imbecil quem assim lhe parecia. Mas é nessa violência retórica que está a sua lucidez. Ele escreve como um panfletário porque sabe que o tempo do tratado filosófico já passou. Para ele, o que está em jogo é a vida interior, essa região invisível onde se forma a consciência, o juízo e a recusa à servidão.
O livro que saiu em 1947 permanece atual, apesar de datado em suas imagens. O mundo industrial do pós-guerra deu lugar a uma paisagem minimalista, silenciosa e digital, mas o mecanismo profundo permanece o mesmo. A uniformização mecanicista que Bernanos denunciava na sua época, hoje se chama padronização algorítmica. A obediência que antes vinha de fora, agora se apresenta como escolha pessoal. O resultado, porém, é semelhante: homens cada vez mais funcionais, porém, cada vez menos livres.
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A França contra os robôs
Georges bernanos
É Realizações, 2018
256 páginas




