#Livros: As guerras de Tucídides e as nossas
A História se repete, às vezes como farsa, às vezes como picaretagem
Tucídides escreveu a História da Guerra do Peloponeso para que o tempo não apagasse a memória dos homens. Sabia que a guerra não termina quando se calam as armas, porque continua vivendo nas palavras, nos medos e nos cálculos dos sobreviventes. Ao narrar o choque entre Atenas e Esparta, ele não descreveu apenas navios, armas e batalhas: descreveu a anatomia do poder. Mostrou como cidades orgulhosas de suas leis podem, diante da ameaça, trocar a prudência pela soberba e a justiça pela conveniência — e até corrupção. Séculos depois, seguimos andando por esse mesmo corredor obscuro, reconhecendo nas sombras os velhos rostos da ambição.
Também hoje as democracias se erguem em praças iluminadas, com gente de todo o tipo falando em liberdade, direitos e participação, e muitas vezes podem acabar na ambição, no tilintar das moedas e na demagogia dos privilégios.
Votamos, debatemos, manifestamos nossa indignação, e ainda assim vemos crescer a desconfiança como ferrugem nas engrenagens públicas. A linguagem, que deveria servir para esclarecer, tornou-se campo de batalha: palavras são armadas, números são disfarces, verdades são partidas em versões fraudulentas. Tucídides entendia esse espetáculo como ninguém. Ele viu, em tempos de peste e guerra civil, como a mentira pode vestir o traje da necessidade e como o medo torna aceitável aquilo que antes seria absurdo e até mesmo intolerável.
As guerras de nosso século já não chegam mais com estandartes e trombetas. Muitas avançam silenciosas, em telas acesas na madrugada, em mercados que colapsam por fraude e corrupção, em fronteiras que se fecham com medo dos imigrantes, em ondas de refugiados, em ataques cibernéticos com muita desinformação. Mas quando tudo falha, seguem as formas antigas, brutais e diretas, deixando cidades em ruínas e uma montanha de mortos. Mudam as formas, não os impulsos. Continuamos capazes de destruir em nome da paz, de escravizar em nome da liberdade, de odiar em nome do bem comum.
Tucídides morreu, mas sua obra vive. Porque nos lembra que a democracia não colapsa apenas por conspirações e tentativas de golpes de Estado; ela vai definhando lentamente, corroída pela ambição e pelo cinismo dos políticos, mas sobretudo pela ignorância e indiferença popular que aceita viver num ambiente social insalubre e corrupto.
A guerra, portanto, não tem origem no inimigo externo. Ela germina silenciosamente numa sociedade que perdeu a capacidade de se autogovernar e de reconhecer a dignidade e a cidadania entre seus membros.
Quando perdemos completamente as referências, só nos resta apelar aos antigos. A História não serve apenas como registro científico das eras passadas, mas também como uma forma de reconhecermos as nossas virtudes e, principalmente, nossas limitações.
Ler os antigos, não é olhar para trás, mas olhar para dentro. Porque em cada crise social ou política, em cada líder que promete o que não pode cumprir, em cada multidão que prefere o grito ao argumento, os problemas de Atenas e Esparta, descritos por Tucídides, voltam a ecoar entre nós.
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História da Guerra do Peloponeso
Tucídides
Tradução de Mário da Gama Kury
Editora Madamu, 2022
628 páginas





"Ler os antigos, não é olhar para trás, mas olhar para dentro." Perfeito, Chiuso.
Gostei! 👏🏻🏆🤗
PS: bora, João Fonseca! 🎾💪🏻