#Livros: Foucault: ou o Niilismo de Cátedra, de José Guilherme Merquior
Publicado em 1985, ele se apresenta como uma análise abrangente e crítica do pensamento foucaultiano
O livro Foucault: ou o Niilismo de Cátedra, de José Guilherme Merquior, ocupa um lugar singular na recepção internacional da obra de Michel Foucault. Publicado em 1985, ele se apresenta como uma análise abrangente e crítica do pensamento foucaultiano, com ênfase na relação entre conhecimento, poder e verdade. Diferentemente de muitos comentadores que buscavam desenvolver ou aplicar as ideias de Foucault, Merquior adota uma postura declaradamente crítica, questionando a consistência histórica e filosófica do autor francês.
Um dos méritos frequentemente reconhecidos, sobretudo em círculos anglo-americanos, é a clareza expositiva e a capacidade de síntese de Merquior. O livro foi elogiado como uma das melhores introduções críticas ao pensamento de Foucault, capaz de mapear suas fases — arqueológica e genealógica — com precisão e simplicidade. Além disso, a erudição de Merquior e sua familiaridade com a tradição intelectual europeia conferem densidade ao texto, tornando-o acessível sem ser simplista. Essa combinação explica por que alguns leitores o consideram uma obra de referência, especialmente para quem busca uma visão crítica e não apologética.
Entretanto, os fãs de Foucault não gostam muito da obra. Muitos estudiosos ligados ao pós-estruturalismo argumentam que Merquior reduz indevidamente a complexidade do projeto foucaultiano ao tratá-lo como uma espécie de “historiografia falha”. Segundo esses críticos, Foucault não pretendia produzir uma história factual no sentido tradicional, mas sim análises genealógicas das formas de saber e poder. Assim, ao acusá-lo de erros empíricos, Merquior estaria aplicando critérios inadequados ao objeto que analisa.
No contexto norte-americano, a recepção inclui também leituras mais favoráveis e até entusiásticas, como a de Camille Paglia, que afirmou, no seu livro Sexo, Arte e Cultura Americana, que Merquior “expõe de forma hilariante os erros elementares cometidos por Foucault em todas as áreas sobre as quais escreveu”. Essa leitura enfatiza a dimensão combativa da obra de Merquior, valorizando sua disposição de confrontar um autor que, à época, gozava de grande prestígio acadêmico.
A verdade é que Foucault: ou o Niilismo de Cátedra permanece uma obra controversa, cuja importância reside tanto em seus argumentos quanto nas reações que suscitou. Tem a abrangência acadêmica da exposição racionalista do pensamento foucaultiano e suas derivações, e a crítica polêmica às suas ideias e consequências. Isso faz com que o livro continue sendo uma excelente introdução ao pensamento de Foucault, por conta da análise criteriosa tão comum nas obras de Merquior, e também uma crítica devastadora às ideias do filósofo francês que, ainda hoje, tem uma importância monumental no ambiente acadêmico brasileiro.
_____________________
Foucault: ou o Niilismo de Cátedra
José Guilherme Merquior
É Realizações, 2021
440 páginas





