Livros: O racionalismo prudente de Michael Oakeshott
A obra de um filósofo conservador contra o delírio juvenil da salvação pela ideologia
Michael Oakeshott desenvolveu uma crítica consistente à forma como a política moderna passou a se orientar por expectativas de planejamento, controle e resultados previsíveis. Em seus textos, ele questiona a ideia de que governar seja aplicar métodos racionais a uma sociedade tratada de forma mecanicista.
Ele olha para a modernidade e percebe um vício: a crença de que governar é administrar um plano, como se a sociedade fosse um projeto de engenharia e não um organismo histórico, cheio de hábitos, linguagens, arestas e contradições humanas.
Num dos seus livros mais conhecidos, A Política da Fé e a Política do Ceticismo, ele trata a “fé” não é devoção mística, mas como a confiança inflada na capacidade de redesenhar o mundo por decreto ou planejamento burocrático. O governo, assim, torna-se um instrumento na busca de uma perfeição impossível, e a política vira promessa de cura, de salvação.
Por outro lado, “ceticismo” não é incredulidade, mas prudência institucional, uma lembrança incômoda de que o poder erra com convicção e que a inteligência política, quando se apaixona por soluções, costuma produzir catástrofes com boas intenções. E nem entra nessa equação a imoralidade pública e a incompetência presunçosa.
Oakeshott, portanto, escreve para lembrar que a política vive de limites, e que limites não são apenas freios morais: são tecnologias de convivência. O cético, para Oakeshott, não é o pessimista que se recusa a agir, mas o sujeito que desconfia do delírio terapêutico do governo e prefere regras, procedimentos e, principalmente, contenções. Ele sabe que as sociedades são limitadas porque são compostas por seres humanos limitados.
Essa mesma desconfiança reaparece, numa outra perspectiva, em A Voz da Educação Liberal. Aqui, a tentação de “fé” assume o formato educacional: transformar a universidade numa fábrica de competências, numa clínica de redenção social, num centro de treinamento para finalidades externas — a economia, o mercado, o Estado, a causa ideológica do momento. Contra isso, Oakeshott propõe uma imagem que irrita os burocratas do espírito: educação liberal como iniciação de uma conversa, um aprender a ouvir e falar as linguagens do pensamento, ao invés de um hábito de colecionar diplomas como se fossem selos de produtividade.
As críticas mais comuns a esse Oakeshott são previsíveis: que sua prudência pode cheirar a conformismo, que sua “conversa” pode soar elitista, que sua recusa da planificação social pode virar uma forma elegante de aceitar viver no mundo como ele está. Mas são meros espantalhos.
A obra de Oakeshott descreve com precisão a ansiedade moderna por uma autoridade que nos poupe do risco de julgar. A política da fé promete libertar, mas acaba sempre nos aprisionando num ideal salvífico que acaba sempre em tirania. Da mesma forma que a educação instrumental promete emancipar, mas termina num empobrecimento doutrinal que se torna um obstáculo à inteligência.
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A Política da Fé e a Política do Ceticismo
Michael Oakeshott
É Realizações, 2018
232 páginas
A Voz da Educação Liberal
Michael Oakeshott
Editora Âyiné, 2021
350 páginas







O artigo veio em boa hora. Estou lendo "A política da fé e a política do ceticismo" e vou procurar conhecer "A voz da educação liberal".
Gostei! 🏆👏🏻
Lembrei da minha amiga Clarissa da faculdade:
-Não sou pessimista, Fervo, mas sim realista! 😂
Eita tempo bom! Saudade da Pontifícia! Eu pecava e era tão feliz! 🙃 🙏🏻😈