#MagistradosRadiotivos
A sombra da toga não serve mais nem para refrescar o palanque
Pesquisa da Quaest indicou que 49% dos eleitores não confiam nos ministros do Supremo e 66% pretendem escolher candidatos que apoiem o impeachment dos magistrados. Diante desses números e da frouxidão de Flávio Bolsonaro, que está em seu melindroso silêncio sobre a relação dos ministros com o Master, o PT está tentando ganhar essa audiência.
Antes de enterrar a CPI do Crime Organizado junto com Alcolumbre, numa operação que exigiu a troca relâmpago de Sergio Moro e Marcos do Val por senadores adestrados do PT, Lula foi ao ICL. Fingiu indignação com o patrimônio milionário de Alexandre de Moraes, tentando tirar a sombra da toga do seu palanque. Aquele que até ontem era salvador da democracia, agora começa a ser desenhado como o tipo de gente que enriqueceu com “outras coisas” e não com sua remuneração de servidor público. Não há dúvidas de que Lula entende bem desse tema.
Mas, segundo Thais Oyama, o buraco com os magistrados radiotivos é mais embaixo e não tem fundo.
Por motivos distintos, tanto Lula quanto Flávio pretendiam manter a maior distância possível do inconveniente assunto dos magistrados radioativos. A entrada de Caiado na eleição, porém, tende a obrigar os dois a mudar o jogo. Na segunda-feira, o candidato do PSD declarou que, antes mesmo de um eventual impeachment de ministros, o STF deveria “cortar na própria carne” e afastar os nomes envolvidos no escândalo. Ao arrastar o tema para a arena presidencial, Caiado obriga Flávio a segui-lo, ao mesmo tempo que força Lula a se mexer para não ficar com o mico na mão.
A terceira razão para o petista buscar distanciamento sanitário do ex-aliado Moraes nasce do solo fértil da especulação: é que um passarinho, altamente informado sobre o andamento das investigações policiais do Master, contou ao presidente que mais coisa pesada vem por aí – e que não há salvação para a biografia do companheiro Alexandre.
Se a eleição de 2022 era sobre “salvar a democracia”, tudo indica que a de 2026 será sobre o que os grandes “salvadores” fizeram com o cheque em branco que receberam. Agora, muito mais gente já percebeu que a reabilitação de Lula era apenas o meio necessário para que os ministros blindassem os próprios pescoços. Os salvadores da democracia sempre foram os salvadores de si mesmos.
Sem saída para Moraes, Gleisi Hoffmann também já começou a mudar o discurso. Ela sugeriu que já está na hora de uma reforma do Judiciário, que tem de ocorrer, claro, apenas após as eleições. “Quem teve relações com Vorcaro tem que se explicar sobre quais foram, o que ganharam ou não e o que ofereceram.”, disse Gleisi. Lá do mundo encantado daqueles que habitam as planilhas da Odebrecht, ela não enxerga, entre os seus companheiros de partido, ninguém que precise dar explicações.
Todo mundo sabe que o saldão de influências em Brasília sempre prosperou, principalmente sob o domínio petista. Mas está cada dia mais evidente que Daniel Vorcaro só conseguiu operar em um ambiente de impunidade tão escancarado devido, principalmente, às decisões do próprio Supremo. O clima de descondenação estabelecido após o fim da Operação Lava Jato foi perfeito não só para manter como para fazer proliferar os parasitas de sempre.
Vorcaro fundou o Master oferecendo ao Banco Central terrenos sem valor real como garantia, emitiu debêntures e títulos de renda fixa sem fiscalização efetiva da CVM e captou recursos de fundos de pensão de forma irregular. Passou anos pagando servidores do Banco Central para evitar punições.
Mas certamente seus melhores investimentos foram os R$ 35 milhões pagos pela cota no resort da família Toffoli, o contrato de R$ 130 milhões com a família Moraes, o financiamento de eventos, orgias e viagens de jatinho para todas as autoridades que conseguiu comprar no saldão. Além de quase ganhar um emenda com seu nome que arrebentaria ainda mais com o sistema financeiro, ele garantiu acesso direto a um celular oficial do STF, um suporte jurídico impensável em qualquer país minimamente decente.
A estratégia de eleger emergências supremas, como a pandemia ou a ameaça de golpe, funcionou como um passe livre para a suspensão de qualquer escrutínio. Ao elevar o combate a Bolsonaro ao status de única prioridade existencial da República, criou-se um ambiente onde qualquer questionamento sobre os métodos ou sobre as relações promíscuas entre o público e o privado passou a ser visto como uma traição à democracia.
A ideia muito disseminada, até hoje, de que era necessário ter firmeza contra o perigoso golpe de Bolsonaro funcionou como blindagem para esse projeto de hegemonia que basicamente consiste na pilhagem, no assalto ao Estado, sem permitir nenhum tipo de reação, só convidados que saibam ficar em silêncio sempre que for conveniente. Estes são chamados “oposição”.
Eis um golpe verdadeiramente periogoso e duradouro. Enquanto as intenções tresloucadas de Bolsonaro foram contidas pelos próprios militares, as décadas de golpes aplicados pelo lulismo seguem o seu curso.
Há quem diga que há um fantasma da corrupção do judiciário que se esconde pelos cantos ou embaixo das togas. E todas as vezes que alguém se aproxima dele, o movimento para esconder a sujeira é violento. Mas, se observarmos com atenção, ainda que muitas evidências e fatos se mantenham escondidos, tudo o que está sob a luz do sol é mais do que suficiente para saber do que é feito o judiciário. O que pensar daqueles que, de dentro dos tribunais ou da OAB, olham para isso e permanecem calados? Estão envolvidos? São apenas eloquentes covardes? Ou ambos?
Carmem Lúcia é um exemplo. Usou novamente a carta da misoginia. A mulher ocupa o cargo que atualmente concentra o maior poder do país, mas continua a ser oprimida. Afirmou que sua família insiste para que ela saia da Corte, não porque ela não demonstra competência para combater a lama na qual os magistrados - e a magistrada - estão mergulhados por suas próprias escolhas e decisões, mas pelos ataques machistas e sexistas das redes sociais. Está construíndo sua narrativa para abandonar o navio? Ou atendendo às súplicas de algum colega machista e sexista? A ausência de uma coluna vertebral não acomete somente os homens que ocupam cargos de poder em Brasília. Quem diria?





Excelente texto! Pena que atinja um público restrito.
Ainda não digeri a substituição de 2 senadores, feita na última hora, na CPI do crime organizado, para garantir a rejeição do relatório.
Texto brilhante!!