#NaGôndolaDoMainardi: Minha ilha da fantasia
"Finjo que Veneza é diferente dos outros lugares, uma espécie de aldeia de Asterix que resiste ao império absoluto"
O Neim está republicando as crônicas que Mainardi escreveu para a revista Veja – e que a revista, curiosamente, excluiu do seu site.
Minha ilha da fantasia
(publicado em 19 julho de 2000 - Veja, ed. 1658)
Costumo falar muito sobre Veneza em minha coluna. Pelo menos uma vez a cada dois meses. Dou-me perfeitamente conta de que é o assunto que menos interessa aos leitores de VEJA. Nada mais distante dos problemas brasileiros do que uma ilhota fedida e lamacenta perdida no Mar Adriático. Mas não se trata de esnobismo. Essa insistência tem um fundamento. Escolhi morar em Veneza porque a cidade me pareceu impermeável à contemporaneidade. Enquanto o mundo vai se tornando sempre mais parecido, Veneza resta imutável, imersa em seu esgoto secular. Cheguei a escrever um textinho a esse respeito, que um amigo meu, Tiziano Scarpa, decidiu anexar ao seu guia de Veneza, recentemente publicado pela editora Feltrinelli. No textinho, defendo a tese de que Veneza põe em xeque a fé no progresso humano, pois nenhuma inovação consegue se firmar por aqui. É uma Paquetá bizantina. De vez em quando, aparece um empreendedor disposto a investir fortunas para tirar a cidade do marasmo, mas, felizmente, ele logo vai à falência. Veneza é como aquelas seitas americanas em que as pessoas ainda andam de carroça e recusam-se a vacinar as crianças.




