#NaGôndolaDoMainardi: Obra do demônio
"No começo do ano, deram-me de presente um programa de xadrez para o computador. Está arruinando minha vida"
O Neim está republicando as crônicas que Mainardi escreveu para a revista Veja – e que a revista, curiosamente, excluiu do seu site.
Obra do demônio
(publicado em 19 de janeiro de 2000 - Veja, ed. 1632)
Eu sou um mau jogador de xadrez. Pior do que eu, só o escritor americano Gore Vidal. Eu o conheci em 1987, quando ele visitou o Brasil para o lançamento de um livro de ensaios. A minha tarefa era levá-lo de um lado para o outro, servindo-lhe de intérprete. Viramos amigos. Ou melhor, eu digo a todo mundo que sou seu amigo, mas ele mal me reconhece. Ainda assim, alguns anos atrás, gentilmente me convidou a passar dois ou três dias em sua casa no sul da Itália, em Ravello. Jogávamos xadrez por horas e horas. Ele perdia sempre. Essas derrotas o irritavam tanto que se recusava a falar comigo pelo resto do dia e era obrigado a tomar umas bolinhas para diminuir o ritmo cardíaco.





