#PalavrasJulgadas
O paralelo entre Lenny Bruce e o nome do vinho Putos
Apesar de bem humorados na imagem, seguimos putos…
Nos anos 1950 e 1960, havia um humorista nos Estados Unidos que acreditava numa coisa simples: o problema nunca foi a palavra, mas o medo que o Estado tem dela. O nome dele era Lenny Bruce.
Ele foi preso, processado e condenado por dizer em público termos como “fuck, motherfucker, cocksucker, shit, ass, tits e cunt”. Nos tribunais, os promotores liam essas palavras em voz alta, fora do palco, fora do contexto e fora da intenção. A lógica era simples e assustadora: se a palavra era considerada feia, ela virava crime.
Décadas depois, o próprio Estado americano reconheceu o erro. Em 2003, quase quarenta anos após sua morte, Nova York concedeu a Lenny Bruce um perdão póstumo, admitindo que ele havia sido punido por desafiar uma moral linguística arcaica.
No meu caso, isso ficou muito claro quando inventei o nome de um vinho, o “Putos”. O vinho é produzido em Portugal e, lá, “putos” significa “garotos”. É palavra de casa, de família, de escola. Nada obsceno. Nada sexual.
O nome fazia sentido com a origem do produto e, como somos três humoristas, Danilo Gentili, Diogo Portugal e eu, ainda tinha um jogo de linguagem óbvio para o brasileiro. Tentamos registrar a marca normalmente. E foi aí que começou o problema.
O INPI, Instituto Nacional da Propriedade Industrial, órgão federal responsável pelo registro de marcas no país, negou o pedido alegando que a palavra ofenderia a moral e os bons costumes. Não pelo uso real. Não pelo contexto cultural. Mas pela palavra isolada, congelada, tratada como se tivesse um único significado possível pro planeta inteiro.
Para discutir isso, não teve alternativa. Precisamos entrar na Justiça Federal para explicar algo que, sinceramente, parecia óbvio demais para virar processo: palavras não são universais. Linguagem muda. Contexto importa.
Até aqui, já daria para parar. Mas tem um detalhe que torna tudo ainda mais revelador.
Se a palavra em discussão fosse “puta”, com toda a sua carga histórica e sexual explícita, eu até conseguiria entender, ainda que discordasse, uma leitura mais restritiva do Estado. “Puta” carrega, gostemos ou não, uma associação direta com sexualidade e prostituição.
Mas “puto” é outra coisa. No português do Brasil, “puto” não é sexual. “Estou puto” não descreve nada erótico. Descreve alguém nervoso, irritado, revoltado. É estado de espírito, não de corpo. Que é o estado em que estamos, ironicamente.
Em Portugal, então, a distância é ainda maior: “puto” é simplesmente “garoto”.
Tratar “puto” como se carregasse automaticamente uma ofensa moral ou sexual não é excesso de zelo. É descolamento da realidade. É ignorar o uso real da língua. É aplicar uma leitura congelada a uma palavra viva.
Bruce foi condenado porque o sistema decidiu que certas palavras não podiam ser ditas, independentemente do contexto. Hoje, ninguém é preso por dizer fuck ou shit. Mas ainda se proíbe, se bloqueia e se judicializa. Mudou o método, não a mentalidade.
Lenny Bruce morreu aos 40 anos, sozinho, por overdose de morfina. Hoje, historiadores e biógrafos tratam sua morte não como um episódio isolado de dependência química, mas como consequência direta de anos de censura, perseguição judicial, proibições de trabalho e desgaste psicológico imposto pelo próprio sistema que depois pediu desculpas.
Apesar de termos tido uma decisão favorável nessa semana, 70 anos depois de Lenny Bruce, seguimos discutindo a mesma coisa: se o Estado pode tratar palavras como crime em si, ignorando intenção, cultura e sentido. Setenta anos separam as histórias. O raciocínio institucional, infelizmente, nem tanto.
Talvez o verdadeiro atraso não esteja nas palavras que usamos, mas na dificuldade de aceitá-las como elas são. Vivas, mutáveis e profundamente contextuais. E isso, depois de tudo o que já aprendemos, deveria constranger um pouco mais.
Escrevi sobre a notícia na coluna que eu mantenho no Portal iG. Leia aqui.




Pode estar certo de uma coisa: o problema não é a palavra, mas quem a disse (no caso, usou), como o próprio Danilo Gentili diz.
Além da falsa moralidade do Estado ao se preocupar com certas palavras, eles estão cerceando o direito do proprietário/criador.
Se eu quiser lançar um vinho e colocar o nome “Merda”, o problema é exclusivamente meu. Não acho que seria um sucesso de vendas.