#Racionalidade
Antes de nos tornarmos reféns de fato, nós nos tornamos reféns de ideias
Umas das minhas principais preocupações filosóficas tem sido a racionalidade do debate público, sobretudo quando se trata de pensar questões que impactam decisões políticas e sociais que afetam uma sociedade inteira. Se você procurar no histórico aqui no NEIM, vai ver que meus primeiros textos já foram sobre isso. O problema não é simples e envolve uma série de elementos e, do ponto de vista daquilo que mais me importa, a questão toca em nosso próprio conceito de racionalidade. Nos últimos 300 ou 400 anos o que entendemos por ser racional sofreu diversas mutações para pior. Mas não é sobre isso que escrevo agora. Um dos motivos pelos quais o problema é complexo é que ele também envolve questões que poderíamos chamar de antropológicas, sociológicas, culturais e, inclusive psicológicas.
Atualmente tenho notado, com uma pervasividade cada vez mais crescente, um fenômeno que, de fato não é novo, mas parece estar recrudescendo; e, portanto, se tornado mas difícil de ser combatido porque mais difícil de ser notado. Refiro-me a uma característica que atravessa virtualmente quase todas as questões que ocupam os postos de pautas diárias na imprensa, a saber, o fato de que sobre quase todos os grandes assuntos, as discussões e dissensos só poderem existir a partir de certas posições cristalizadas que, no entanto, estão longe de serem pacíficas ou evidentes. É como se os debates só pudessem surgir a partir de um ponto antes do qual estaríamos diante de verdades inquestionáveis. Mas para que serve um debate se as premissas das partes não estiverem igualmente em jogo?
Uma fonte quase inesgotável de casos assim são as discussões sobre inteligência artificial. Há poucas semanas participei de um dos maiores congressos de ética e IA da Europa e havia pessoas discutindo sobre diversos tipos de usos. De usos militares à área de saúde, passando pela educação. A cada fala, novos e espinhosíssimos problemas morais eram esfregados na cara da audiência. De sistemas de militares usando IA para decidir hora e local de bombardeios a hospitais usando softwares de IA para triagem em ambulatórios. Propostas sérias de substituição de parlamentos por sistemas de LLM. Mas hoje em dia é impossível passar cinco minutos lendo notícias ou artigos de opinião sem que se tope com posições que estão sobre bases inquestionáveis: ou as IAs são a melhor coisa que já aconteceu à humanidade e, portanto, o que devemos fazer é apenas nos esforçar para não ficar pra trás ou, ainda, que a tecnologia deve ser regulada a ponto que só anjos descidos à Terra poderão nos dizer o que fazer com ela. O leitor do NEIM, que é genial, a essa altura já deve ter expandido o que digo aqui para os debates políticos da última hora. Isso porque cair na armadilha de pressupor como evidente precisamente o que deveria estar em questão é tão fácil quanto emitir uma opinião.
O perigo que não se percebe é que antes de nos tornarmos reféns de fato, nós nos tornamos reféns de ideias. E a síndrome de Estocolmo neste caso, usualmente vira caso de amor eterno.
O cenário político atual do bananal confirma o último parágrafo.
Sempre interessantes seus textos.