#TerraVarrida
O que um empate na Copa e a morte de uma jovem têm em comum: a falta de capricho
Maria Eduarda Rodrigues de Freitas
Na estreia do Brasil na Copa, a gente empatou em 1 a 1 com o Marrocos. Saí com uma sensação estranha. Depois percebi que não fui o único.
Pareceu um daqueles dias em que todo mundo apareceu para cumprir tabela. Como se ninguém estivesse ali para fazer história. Só para fazer o suficiente.
Clóvis de Barros tem uma palestra em que diz que o mundo está lotado de gente nota 5. Não gente incompetente. Gente que faz o necessário, mas sem obsessão. Sem busca pela excelência. Gente que termina e pensa:
“Ah, tá bom.”
Isso me lembrou minha avó materna. Ela morava na roça, no interior de Bom Jesus dos Perdões, numa casa de chão de terra. Quando eu era criança, eu a via varrendo aquele chão e não entendia. Pra que varrer um chão de terra? Mario Sergio Cortella conta uma história parecida, sobre o mesmo tipo de pessoa, o mesmo tipo de gesto.
“… Eu entrava na casa, chão de terra varrido. Tudo varrido. Capricho. Fazer o melhor na condição que tem enquanto não tem condições melhores pra fazer melhor ainda.”
É exatamente isso que está faltando: capricho.
O problema de se acostumar com o mínimo é que a linha entre o suficiente e o insuficiente é muito fina. E o que essa linha custa depende do contexto. Na Copa, pode custar um título. Em outros lugares, pode custar mais.
Existem momentos em que a gente entrega a própria segurança nas mãos de outra pessoa. Num avião, numa cirurgia, ou no salto daquela garota de 21 anos que acreditava que tudo estava seguro. As imagens mostram ela sendo lançada sem estar presa aos equipamentos de segurança.
Quando uma coisa dessas acontece, a gente procura uma grande explicação. Mas muitas vezes as tragédias nascem de algo muito menor. Elas começam quando alguém deixa de conferir. Quando alguém deixa para depois. Quando alguém pensa:
“Ah, tá bom.”
A diferença entre o profissional comum e o profissional excepcional raramente está no conhecimento. Está no cuidado. Naquela preocupação que parece meio exagerada, está no detalhe, até o dia em que ela salva uma vida.
Minha avó sabia que o chão continuaria sendo terra. Mesmo assim ela varria. Todo santo dia.
E eu tenho certeza que ela não se contentava com:
“Ah… tá bom.”




Péssima comparação. Em um caso, estamos falando da vida de uma jovem, segurança deveria vir em primeiro lugar. A irresponsabildade de pessoas mal preparadas levou a uma tragédia. No segundo caso, jovens , a maioria saídos das periferias e transformados em milionários, ou até bilionários, da noite para o dia, acham que não precisam fazer o básico, já que sempre haverá um público trouxa para os idolatrar.
Concordo com o texto. Isso me lembra um episódio do mangá Lobo Solitário. O samurai mercenario é contratado para matar o Buda reencarnado, que estava incomodando os poderosos. Ao chegar perto para mata-lo, o samurai perde a coragem de matar um homem santo. O Buda então lhe diz: se encontrares seu pai, mate seu pai. Se encontrares o Buda, mate o Buda. Ou seja, como o karma do ronin era de ser um assassino, ele teria que sê-lo à perfeição. É bem o oposto do Ah, tá bom