#Literatura: Um escritor que ressuscita em palavras (2)
Diogo Mainardi me obrigou a observar detidamente nádegas e mamilos
Parte 2
Mamilos e nádegas não são um assunto que me atrai, nem femininos nem masculinos atraem meu olhar. Mas ao ler Meus mortos, de Diogo Mainardi, fui obrigada a observá-los detidamente várias vezes. Por sorte não se tratava de gente conhecida, seria estranho depois encontrá-las vestidas, por exemplo, no corredor das massas e molhos no supermercado, ou na fila da autenticação no cartório aqui perto. Sem chance. Não vivem no Brasil. Essas pessoas com quem ganhei toda essa intimidade viveram há séculos. Só as conheci porque algum artista as escolheu como modelos para retratar os maiores dramas da vida humana.
Viveram há séculos, mas não morreram. É isso que Mainardi mostra em seu livro, e mais importante, mostra que esses quadros são para ele uma fonte de vida. Enquanto passeia por uma Veneza cinza e silenciosa, descreve detalhes de pinturas que aos meus olhos analfabetos nesta arte não veriam. Não são detalhes aleatórios: são muitos mamilos e nádegas, mas também narizes, queixos, posturas, luz e sombra, cores, borrões cuidadosamente produzidos por vários pintores, um imitando o outro, todos imitando Tiziano. Serão esses os “meus mortos” do título? São eles que pintaram o “autorretrato” do subtítulo? Sim e não.
Do ponto de vista de ensaio — é um livro de vários gêneros — a tese central é que Tiziano foi o maior pintor de todos os tempos. Não é uma tese chocante, é quase uma unanimidade, segundo descobri. Rubens, Michelangelo, e tantos outros nada seriam sem ele. Isso Mainardi prova através de fotos de quadros, fragmentos desses quadros, e fragmentos dos fragmentos, apresentados por ele mesmo em formato de fotonovela. São centenas de quadrinhos, alguns em preto e branco e outros coloridos, explicados por frases do autor, organizados em capítulos, cada capítulo um pequeno ensaio sobre um detalhe de alguma pintura, todos para corroborar a tese central. Fácil, não? De jeito nenhum. Entremeados nesses capítulos há outros sobre sua família, seu pai, sua mãe e seu irmão, a quem Mainardi perdeu no intervalo de poucos meses, durante a pandemia. Seus mortos. Aí está o coração da narrativa. Tudo mais é cérebro. Não basta ler para entender a relação de Tiziano a essa tragédia, é preciso procurar padrões (procurar padrões na natureza é a essência da ciência e eu sou cientista), apelar para sua lupa interior para ampliar mil vezes a dor trancada entre as molduras brancas de cada quadrinho. E você não terá a resposta, mas estará mais perto de saber o que perguntar.
Na minha busca por entender esse livro, começo por Tiziano, já que o autor assim começa a narrativa. Tiziano Vecellio nasceu em algum momento entre 1488 e 1490 em Pieve di Cadore, República de Veneza, e faleceu em 1576, em Veneza. Segundo o site do National Gallery, em Londres, foi o maior pintor italiano do Renascimento, da escola veneziana. Reconhecido ainda em vida como um pintor de talento excepcional, sua reputação, ao longo dos séculos, jamais diminuiu. Foi considerado “o sol entre pequenas estrelas, não apenas entre os italianos, mas entre todos os pintores do mundo”. O pintor dos pintores. Ao longo de sua carreira criou diversos estilos de pintura que influenciaram o desenvolvimento da arte a partir de então. Foi o primeiro pintor a ter uma clientela predominantemente internacional, em um período da história em que para ver um quadro era preciso estar frente a frente com ele. Não havia nenhum meio de transmitir a imagem, era preciso vê-la. Da mesma forma hoje, a experiência de ver um quadro na tela do computador ou mesmo dessas TV’s gigantes não se compara à experiência de estar na presença do quadro, e poder aí passar um tempo sem pressa. Se você quer descobrir como essa experiência pode ser transformada em literatura preciosa e como ela pode ser transformadora, leia Mestres antigos, de Thomas Bernhard, ou Melancolia, de Jon Fosse.
Tiziano Vecellio nasceu em Pieve di Cadore, uma pequena cidade aos pés das Dolomitas, no lado veneziano dos Alpes. A família Vecellio residia em Cadore desde o século XIV. Por volta dos 10 anos de idade, Tiziano chegou a Veneza, então uma das cidades mais ricas e cosmopolitas do mundo. Iniciou sua formação artística na oficina do mosaicista Sebastiano Zuccato. Mais tarde, passou a trabalhar na oficina de Giovanni Bellini, na época, a mais importante de Veneza.
Através do contato com Giorgione, que também havia se formado na oficina de Giovanni Bellini, ele desenvolveu principalmente seu estilo inicial, caracterizado por um tom bucólico. Em 1508 eles trabalharam juntos na decoração das paredes externas do “Fondaco dei Tedeschi” em Veneza. As partes executadas por Tiziano foram muito elogiadas pelos contemporâneos, para grande desgosto de Giorgione. Pobre Giorgione. Imagino a tristeza de descobrir-se tão pequeno ao lado de um gigante em formação, que até então ele pensava ser seu igual. A alegria de um verdadeiro professor é ver seus alunos o superarem. O que seria de Antonio Salieri, compositor e pianista excepcional e também mestre de Beethoven, Schubert e Liszt, se não tivesse a grandeza para alegrar-se com o sucesso de seus alunos? Contrário ao mito popular, Salieri não foi mentor de Mozart e muito menos conspirou para envenená-lo. Nunca saberemos se Giogione foi capaz dessa grandeza, mas o brilho de Tiziano ofuscou muitos outros durante toda sua longa carreira.
Após a morte de Giorgione em 1510, Tiziano lançou sua carreira independente em Veneza. Já não havia rivais à altura de sua habilidade. Ao pintar os célebres afrescos na Escola do Santo, em Pádua, já estava claro que seu estilo havia atingido a maturidade, marcado pela plenitude das formas, segurança na composição e equilíbrio cromático. Essas características tornaram sua obra fundamental para o desenvolvimento da pintura veneziana – e também europeia. Mainardi aponta exemplos desses três elementos em muitas obras, e de como eles mudaram ao longo da vida do artista.
Tiziano ficou famoso como retratista e como pintor de diversos temas profanos. Uma das aulas mais bem ilustradas em Meus mortos é justamente sobre a cirurgia plástica que Tiziano fez em Carlos V, Sacro Imperador Romano, Arquiduque da Áustria, Rei da Espanha, herdeiro do Império da Espanha e dos Hagsburgos. Lutou para manter seu imenso reino unido, mas fracassou em unir Católicos e Protestantes e finalmente abdicou em favor de seu filho e de seu irmão. A história daquele período é complexa, com muitos conflitos simultâneos em locais diferentes, muitos players, e teria sido fabuloso se Mainardi pudesse incluir tudo isso em seu livro para demonstrar ainda melhor o que Tiziano fez por Carlos V. Mas isso seria uma digressão de umas 50 páginas, impossível em um livro de menos de 300.
Carlos V era um homem inteligente, racional, honrado, possuidor de agudo senso de moral. Ao mesmo tempo, era incapaz de abrir mão de seu poder. Meu pai dizia que só quem tem tesão pelo poder pode ser um político bem sucedido. Ele estava certo, como sempre. Carlos V esteve no poder de 1515, aos 15 anos, a 1557. Não é pouco. Era saudável (coisa rara, na época), articulado, mas tinha uma desvantagem: um prognatismo extremo, ou seja, seu queixo, projetado para a frente, era tão proeminente que nem uma barba podia disfarçar. E eis que Carlos V conheceu Tiziano em 1530, em Bologna, na ocasião da coroação de Carlos V pelo Papa como Imperador do Sacro Império Romano.
Tiziano retratou-o naquele momento, mas o quadro extraviou-se. Sobreviveu uma cópia feita por Rubens, em 1603, portanto não sabemos até que ponto a cópia é fiel ao original. Mesmo assim, alguns traços chamam a atenção: o quadro é quase todo escuro, exceto o rosto do Imperador, fortemente iluminado. Ele veste uma armadura muito reforçada à la Robocop, e sua mão direita repousa sobre uma espada ereta. Um Super-Homem com o falo em riste, tão grande que escapa ao limite do quadro, pronto para dominar o que vier. O prognatismo está representado, mas quem se importa com o queixo perante uma visão dessas?
Em 1533 Tiziano teve uma segunda oportunidade para retratar Carlos V, e não era bobo, aproveitou muito bem. Carlos V lidava com tremendos conflitos políticos que ao final seriam sua queda, por isso naquele momento precisava ser visto como um homem da razão, mas ao mesmo tempo muito forte e másculo. Da espada, só se vê a ponta do cabo na mão direita do Imperador; no lugar da armadura, um mantô de rico bordado e suntuosa gola de pele negra, cuja origem seus contemporâneos teriam reconhecido – certamente de algum animal poderoso, como um urso negro, um dos maiores predadores da Terra. O falo é saliente, mas não descomunal, em uma abertura oval coberta com tecido diferente do resto da roupa – a meus olhos maliciosos, parece pedir para romper-se, como aquele pontilhado “rasque aqui” de certas embalagens. O indicador da mão direita aponta diretamente para esse detalhe. Também o cachorro que acompanha o Imperador tem a cabeça inclinada para cima, o focinho a centímetros dali. O mais incrível é que tudo isso não é o mais importante do retrato. Agora, em vez de admirar o falo, admira-se o rosto. A cirurgia plástica de Tiziano retocou o nariz e o queixo do Imperador. Ficou lindo.
Daquele momento em diante (e até o fim da sua vida) o Imperador nunca mais permitiu que nenhum outro artista o retratasse.
Plástica sem cicatriz, e Carlos V pôde voltar ao escritório no mesmo dia. Uma maravilha.
Essas habilidades atraíram a atenção de duques e aristocratas italianos intelectualmente ambiciosos. Ah, que saudades desse tempo em que havia duques e aristocratas intelectualmente ambiciosos. Certo estava o Rei David, quando lamentou a morte do Rei Saul e Jonathan na batalha do Monte Gilboa, “Como caem os poderosos!” Segundo Mainardi, havia mais do que curiosidade intelectual nessa admiração pelas obras ditas profanas de Tiziano. Aí entram, por exemplo, os traseiros que “tinham o poder de esquentar o sangue nas veias”, como descreveu Lodovico Dolce, amigo e uma espécie de relações públicas de Tiziano, um dos intelectuais mais influentes de sua época (e sem Tik Tok, veja). O quadro onde aparece essa fabulosa anatomia é “Vênus e Adônis”, uma cena em que Vênus, nua, sentada, vista de costas com as pernas esparramadas, enlaça Adônis implorando por sexo e é desprezada pelo homem mais belo do mundo (sempre desconfiei de homens bonitos). O rapaz era um mortal, mas amante de duas deusas, Afrodite e Perséfone, e já tinha encrenca suficiente naquele triângulo. Vênus não conseguiu o que queria, mas deixou séquitos de homens de carne e osso suspirando (ou sabe-se fazendo o quê) por aquele traseiro, pelo resto dos tempos. Azar de Adônis.
Tiziano também recebeu encomendas para pintar grandes obras religiosas. Seu sucesso em Veneza foi consolidado com a execução do retábulo para o altar-mor da importante igreja franciscana de Santa Maria Gloriosa dei Frari, em Veneza. A chamada “Assunção” (Assunção da Virgem Maria), com quase sete metros de altura, foi exibida em 1518, marcando um divisor de águas revolucionário no design de retábulos venezianos.
Por encomenda de Jacopo Pesaro, entre 1519 e 1526, ele pintou a célebre “Pala Pesaro” para a mesma igreja. Essa composição assimétrica influenciou fortemente a pintura de retábulos venezianos até o século XVIII. Mainardi aponta detalhes dessa obra famosa que eu provavelmente não teria observado, como o olhar vivo, voltado “à câmera”, de um garoto ajoelhado em meio à família de Pesaro que suplica a Maria um lugar no Paraíso. A intenção de Pesaro era ser enterrado ali, cercado desta imagem, uma forma elaborada (e cara) de se preparar para a morte.
Mas... por que Mainardi mostra isso? Você vira a página, e o capítulo seguinte chama-se “Só sobrei eu”. As fotos em rápida sucessão (na minha leitura) são da mãe e dele mesmo na infância, imagens de afeto e tristeza. Em apenas 4 páginas, ele relata mínimas informações sobre a vida da mãe, e sobre como ela via a morte. Ao contrário da esperança de Jacopo Pesaro de ir para o céu, Júlia Mainardi não tinha medo de morrer porque a morte para ela era o nada. Mas para ele, essa morte foi tudo menos nada. Ela morreu 6 meses depois do pai do autor, e dois meses antes do irmão. Enquanto Tiziano, Rubens, e seus sucessores, prepararam-se para a morte cercando-se de imagens do que gostariam de ver após a morte, a família Mainardi não se preparou. Deixaram todas as pontas soltas. Diogo Mainardi organizou seu luto em quadrinhos. Para entender onde está Mainardi hoje, é preciso sair de Veneza, viajar por obras de arte e intenções de gigantes dos pincéis e dos dedos, para poder voltar a ele, de mãos vazias, mas com o coração mais preenchido.
No próximo segmento deste ensaio vamos seguir o olhar de Mainardi pelos grandes herdeiros de Tiziano para entender como eles contribuíram para o autorretrato do autor. Seus mortos nos farão companhia. Leia na próxima segunda-feira.
E leia Meus Mortos. Boa viagem.






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Fico esperando pela próxima segunda-feira.
Obrigada