#SobreviverNaMetrópoleDaMorte
Paisagens da metrópole da morte, do historiador Otto Dov Kulka, busca na memória e na história pessoal de seu autor, entender como ele sobreviveu ao Hades de Auschwitz.
"Ele está em teu poder, mas poupa-lhe a vida". Jó 2,6
A literatura da Shoah é ela uma literatura das cinzas, uma literatura que surge após o indizível apocalipse moral que foi a Endlösung que devorou homens, mulheres, crianças e bebês, consumidos por chamas industriais, cremados até nada restar além de fumaça e resíduos, desumanizados até mesmo na morte. Diante do indizível e da aniquilação absoluta, os autores da Shoah tentam responder à pergunta proibida de se fazer por toda a eternidade: Onde estava Deus?
Assim, tal literatura, mesmo em seus aspectos mais prosaicos, sempre será uma literatura de base religiosa, metafísica – memórias, poemas, romances fazem parte, portanto, da tradição talmúdica, isto é, buscam por elucidar, elaborar, refletir sobre as leis, a ética e a história do judaísmo. Ao abrirmos as páginas das obras (re)nascidas na Shoah, estamos retomando o embate entre Jó e Deus narrado no Antigo Testamento.
Paisagens da metrópole da morte, do historiador Otto Dov Kulka, busca na memória e na história pessoal de seu autor, entender como ele sobreviveu ao Hades de Auschwitz apesar de todos os caminhos levarem diretamente às câmaras de gás e os fornos crematórios, à Grande Morte. Apesar de ser um historiador, um scholar, Kulka irá neste livro usar tons mais pessoais, apelando não apenas para fatos históricos, mas também para sua imaginação e mesmo sonhos que compõem a sua única, ainda que comunal, experiência do Holocausto. Em suas páginas encontramos uma linguagem que transcende a realidade dos acontecimentos e se transmuta em meditação, mesmo oração. Tal fenômeno linguístico ocorre através do uso estilístico das repetições e retomadas de palavras, temas e imagens que permeiam o livro, e da mescla de linguagens literárias que o compõem.
Auschwitz-Bierkenau será lembrando, visitado em suas ruínas, e retratado como a Metrópole da Morte, a Metrópole Fantasma, neste espaço assombrado existe a Pequena Morte e a Grande Morte, a neve branca maculada por manchas negras, um mundo abundante de morte e cuja única saída era a fumaça das chaminés.
Kulka e sua mãe foram alocados em campo singular no complexo de extermínio, chamado de Familienlager (campo das famílias) sua existência era um mistério para os prisioneiros que escaparam do processo de seleção para as câmaras de gás e trabalhos forçados, neste campo, apesar das péssimas condições, famílias ficavam juntas, mantinham suas roupas e não tinham os cabelos raspados. Enquanto os pais trabalhavam, as crianças ficavam em um bloco onde participavam de atividades educacionais e culturais – e Kulka narra de como ele e outras crianças aprenderam a cantar a Ode à Alegria, de Beethoven, naquele lugar. Ele também fala de uma vez em que, doente, esteve internado na enfermaria do campo e lá ele conheceu um jovem prisioneiro que o ensinou sobre Shakespeare, que lhe deu um exemplar de Crime e Castigo, que conversava sobre Goethe e Beethoven – no centro da metrópole da Morte, o humanismo europeu era uma centelha, e mesmo em meio ao inexorável domínio da Morte tais centelhas sobreviveram ao grande aniquilamento, pelas mãos condenadas que ainda escreviam poemas mesmo nos umbrais da morte.
Ao caminhar para as câmaras de gás, uma jovem de aparentemente vinte anos entrega a um dos kapos que organizava a operação, um maço de papel. Este maço foi entregue ao pai de Kulka, e ao abrir ele deparou-se com três poemas escritos em tcheco em um papel fino e desbotado. A leitura dos poemas é um dos momentos mais tocantes e fortes da narrativa de Kulka, são poemas que negam a aniquilação final, são preces que negam a extinção:
“Não, não há cruzes carcomidas em nossos túmulos
e não há lápides abauladas.
Não, não há coroas nem grades de metal lavrado
ou anjos cabisbaixos,
salgueiros e uma coroa com fio dourado,
uma vela eternamente a queimar.
Viramos pó em fossos atufados de cal,
o vento farfalha em nossos ossos.”
O mistério sobre a existência deste campo das famílias será respondido ao final da leitura do livro - e a resposta é um alerta para todos que acreditam na boa vontade de instituições humanitárias - mas talvez jamais saibamos o mistério que poupou a vida de Kulka. Em uma das notas do livro Kulka nos adverte para a possibilidade terrível sobre a história de Jó, de que após todo o seu sofrimento e desgraças, de que após restaurar suas riquezas, ganhar novos filhos e filhas, sua grande tragédia era não saber quem havia derrotado. A literatura da Shoah é uma literatura necessária não apenas para lembrarmos dos que pereceram nos campos da morte nazistas, mas para sabermos quem é o inimigo a ser derrotado.
Livro maravilhoso, Dionisius, parabéns, muito bem escolhido. Discuti em um dos meus clubes de leitura há dois anos, e enquanto preparava a apresentação de Power Point (que preparo para todos os livros) não conseguia parar de criar mais slides, porque o número de temas, a linguagem, as imagens do livro impunham-se, como personagens a um autor. Uma mistura hipnótica de Sebald e Canetti. Leia, você terá sonhos (e pesadelos) inesquecíveis.
Bons textos os seus, Dionisius.