#Literatura: A fortuna crítica de Guilherme de Almeida (II)
Ele foi um dos maiores escritores do nosso país, mas hoje é um ilustre desconhecido
Nos dizeres do professor Aloysio Jansen de Faria, em um capítulo destinado ao autor, na obra basilar intitulada “Poetas do Modernismo”, de organização do professor Leodegário de Azevedo, “o mundo poético de Guilherme de Almeida é, de fato, um universo, e vai até os infinitos de pensar, sentir e dizer de que é capaz o espírito humano, tão universais e perenes são eles, num autor que deseja ser Poeta, antes de tudo, e que faz, da poiésis criadora, a matéria e a forma de seu gênio inventivo. Não há tema, dentro das possibilidades do sentir, e do querer humanos, que lhe seja estranho ou indiferente, a imaginação, a fantasia, a reflexão, a história como a estória, o tema antigo e o moderno, a vida, o homem e o universo”.
Nada mais capta as características dessa mais outra obra poética de juventude do nosso poeta do que esses ensinamentos supracitados. Sendo assim, na obra em epígrafe, “Na Cidade da Névoa”, percebemos todo esse “mundo poético de Guilherme de Almeida” descrito, especialmente no poema-título, que dá voz ao eu-lírico por meio de elucubrações e de suspiros melancólicos acerca de um localidade não especificada, num paralelo similar ao vislumbrado pelo laureado com o Nobel de Literatura TS Eliot, no seu clássico poema The Waste Land, cujo teor é profundamente introspectivo, numa espécie de proto-poesia confessional.
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Como podemos constatar nestes seguintes versos do poeta paulista, publicados entre 1915-1916, há um ambiente aziago referente ao referido período de tempo:
“o mês de abril empoa os céus de cinza e pinta/as árvores de cromo. O mês de abril tem trinta/ quartas-feiras-de-cinza: e a cidade desfia” e também em “cinzento mês de abril, ó mês tuberculoso! A cidade parece o asilo silencioso”. Já nos do anglo-americano, de 1922, há uma representação devastadora de que forma esse período em específico pode refletir toda a dor coletiva de todos os seres vivos da Terra, tal qual em: “abril é o mais cruel dos meses, germina/lilases da terra morta, mistura/memória e desejo, aviva/agônicas raízes com a chuva da primavera”.
A seguir, percebemos este mesmo ethos introspectivo (e talvez até fantasmagórico) que permeia a coletânea no poema a seguir, “A Alma da Rua”, da mesma forma que nos versos em terza rima (três versos elencados com a disposição das rimas em “bcb”): “a rua vive: a rua sofre, a rua goza./ E é por isso que eu creio inabalavelmente/que a rua deve ter uma alma misteriosa” e, como neste dístico da estrofe final, em tensione (quadra de dez ou doze sílabas métricas que representam o determinante poético): “e a alma da rua diz-me o seu pecado, a sua/miséria… E enquanto o vento, o velho órgão, [resmunga]”.
A próxima, “O Altar de Pedra”, é outra de teor melancólico e também fantasmagórico, numa espécie de proto-surrealismo, conforme os versos a seguir: “eu venho debruçar-me entristecidamente/ao meu velho balcão de velhos balaústres” e “às vezes venho, pecador arrependido, confessar-lhes, prostrado, uma íntima desgraça: e o meu balcão mostrando a multidão que passa/cabisbaixa e infeliz, me anima e me consola”.
“Oh A Cidade à Noite” é mais outra poesia de teor deveras taciturno que o poeta evoca, no seu âmago, avivamentos de mais uma cidade afim aos seus sentimentos írritos da sua cosmogonia referente ao espírito do lugar, tal qual em: “Oh! a cidade à noite! Oh! a monotonia/das linhas retas e das luzes perfiladas.../E este mistério, este mistério das fachadas/onde uma porta escura é uma órbita vazia”.

Em seguida, “Estas Chuvas”, há novamente uma evocação, de matiz obnubilado, à figura da localidade do seu entorno, que se torna a musa do poeta, tais quais os versos a seguir: “a cidade, depois das chuvas melancólicas,/ tem um ar de limpeza e de convalescença”, em “às vezes, ainda aflita - estas névoas aflige -/ e então, sempre o vento a sacode, a Cidade/tem acessos de tosse e ameaças de vertigem” e também em: “Oh, a chuva! Este spleen, esta neurastenia!/ a enxurrada que sair pelos poros da rua;/ esta transpiração aborrecida e fria”.
Em outras poesias, como “Os Combustores”, “Os Mostradores”, “As Torres” e “Os Casarões”, percebemos todo o esplendor das cidades, mesmo com uma visão um pouco mais fatalista e inevitável do rápido progresso coetâneo ao poeta. O uso das simbologias são vistas, a princípio, como: “uma ordem singular de monges cismadores”, no caso dos combustores; “olhos sem vida, olhos de morte, olhos vidrados”, para os mostradores; “sonora habitação das aves e dos sinos”, às torres e “os tristes casarões são como as roupas velhas”, para as moradias.
Por fim, na poesia monumental intitulada “Os Tísicos”, de Almeida capta todo o espírito morimbundo de uma das personagens características da cidade durante o início do século XX: o tuberculoso, que avoca para si, numa narração em primeira pessoa, a visão de um médico que trata os pacientes ante às agruras da cidade, consoante podemos verificar nos seguintes versos: “o vento faz tossir os pobres infelizes/dos seus leitos de pedra iguais e paralelos/eles lançam então em longas hemoptises/golfadas outonais de folhas amarelas…” e também em “por isso, quando grassa a triste epidemia,/ e começam, na rua acabrunhada e fria,/ essa deliquescência, essas vertigens suaves,/devo ter, cada vez que vou pela Cidade,/ o riso de consolo, o riso de piedade”.
Diante de todo o exposto, compreendemos que de Almeida, traça em tessituras que percorrem o âmago do ser humano, um sentimento de pequenez (e até mesmo melancólico) diante do pertencimento da cidade tornada “musa” dos seus cantos fúnebres, que podem ser interpretados como algo determinístico para o sentimento taciturno do lado mais obscuro da alma humana.
Leia a primeira parte.
#Literatura: A fortuna crítica de Guilherme de Almeida (1)
Olá, leitores do Não É Imprensa! Tudo bem? É uma honra poder escrever para a maior página do Substack do Brasil. Gostaria de escrever, de forma serial, sobre um dos maiores escritores do nosso país: o hoje ilustre desconhecido Guilherme de Almeida, homônimo do museu (Casa Guilherme de Almeida) situado no bairro Sumaré, em São Paulo.






Obrigado por esta continuação.