#SionologiaEssaDesconhecida
Surto judeofóbico de Jessé de Souza me faz revisitar um artigo que escrevi há 20 anos e um tema pouco explorado por estudiosos do antissemitismo: o papel soviético no atual quadro de ódio aos judeus.
O artigo de meu colega de NEIM e amigo Diogo Chiuso sobre o ataque de antissemitismo que o sociólogo brasileiro Jessé de Souza deu em dois vídeos na tarde de ontem (09/02/26) me fez lembrar de um texto que escrevi há longínquos 20 anos, e que ajudaria a explicar o que está por trás não só de Jessé, mas daquilo que costumamos chamar de “antissemitismo de esquerda”.
O problema era que o artigo em questão supostamente havia deixado de existir há tempos, quando o site onde ele havia sido publicado saiu do ar. E desde que eu soube disso, eu também havia deletado da minha memória a existência daquele texto, dando-o como definitivamente perdido. Não que eu queira ser grato a Jessé de Souza pelo insight que ele involuntariamente me causou, mas o fato é que ele me fez querer bancar o arqueólogo e tentar escavar nas camadas mais profundas do Google em busca da arca perdida que pudesse conter meu artiguinho de jovem aspirante a jornalista que eu era naqueles tempos.
E não é que eu acabei encontrando-o? Uma bendita alma o copiou inteirinho e o reproduziu em seu blog. E o blog (graças a Deus!) se manteve no ar até hoje, permitindo que eu o achasse. Primeira preocupação sanada, veio-me outra: e se o artigo hoje estivesse cheio de anacronismos, errado mesmo? Reli-o com o olhar mais rigoroso que pude e, para meu orgulho, constatei que ele é passável até os dias atuais, embora se possa acrescentar muito mais informações ao pouquíssimo que consegui pesquisar na ocasião.
Resolvi aproveitar deste espaço que o NEIM me concede para refrescar o assunto e também para salvar o artigo original em uma nova casa (espero que o NEIM se mostre ainda mais longevo que o blog que me salvou). Abaixo, vou reproduzi-lo tal como o publiquei em 2006 (na ortografia da época). Mas depois voltarei com mais comentários e atualizações:
As origens do “revisionismo histórico do Holocausto”
Por Victor Grinbaum - Mídia Sem Máscara (2006)
Engana-se quem associa a negação do Holocausto com a extrema-direita. O Revisionismo nasceu entre comunistas e é a esquerda a sua maior propagadora nos dias de hoje.
Em dezembro de 2003, quando saiu finalmente a sentença do Superior Tribunal Federal contra Sigfried Ellwanger, toda a imprensa nacional se referiu ao editor gaúcho de livros anti-semitas como “editor de extrema-direita”. Para quem não sabe, Ellwanger, também conhecido como S. E. Castan, é o proprietário da Editora Revisão, dedicada exclusivamente à publicação de propaganda nazista e de material que nega a matança de milhões de judeus durante a Segunda Guerra Mundial.
Ellwanger e sua editora são adeptos do Revisionismo Histórico, um movimento pretensamente acadêmico que se dedica a tentar provar que o Holocausto judeu durante a Segunda Guerra Mundial não passou de uma invenção. Alegam que Hitler e seus asseclas na verdade eram umas flores de bondade e que tudo o que se publica sobre o assunto é parte de uma grande conspiração midiática de dominação mundial por malvados judeus. As “descobertas” (perdoem-me pelo excesso de aspas, mas elas são inevitáveis) seriam fruto de “revisões” de depoimentos e pesquisas, daí eles se chamarem de “revisionistas”. Em resumo, trata-se de uma mixórdia sem nenhuma sustentação histórica, tratada com o devido desprezo por todos os pesquisadores sérios.
De fato, a associação entre neo-nazismo e extrema-direita é automática e ambas as expressões são encaradas como sinônimos. Até ser processado e condenado em todas as instâncias jurídicas, S. E. Castan agregou em torno de si um pequeno grupo de jovens que agiram em Porto Alegre em pequenos putsches anti-semitas nos anos 80 e 90. Merece plenamente o epíteto de nazista. Mas o dito “revisionismo” (que eu prefiro chamar de negacionismo), por mais fraudulento e mal intencionado, tem também a sua história. E vale a pena conhecê-la.
A primeira vez em que se publicou material que negava a existência de campos de extermínio erguidos pelos nazistas foi na França, na década de 1950. Não por acaso, a França foi o país que menos lutou contra a ocupação alemã durante a guerra. O Regime de Vichy foi, de fato, cúmplice e voluntário das barbaridades nazistas e a França fora também o berço do Affaire Dreyfus(1), e a terra de Gobineau (2) e Édouard Drumont (3).
“Franceses nazistas”, pensará o leitor a esta altura. Errado. Curiosamente, não foram ex-colaboracionistas os primeiros negacionistas, mas justamente o contrário. Pierre Guilleume, militante do grupo trotskista SOB (“Socialismo ou Barbárie”) e posteriormente fundador da dissidência Pouvoir Ouvrier, ao lado de Serge Thion, proprietário de uma pequena casa editora chamada La Vieille Taupe (“A Velha Toupeira”), foram os primeiros publicadores de livros anti-semitas baseados nestas teorias negacionistas. A estrela da “Velha Toupeira” era um membro da Resistência, Paul Raissinier, militante comunista e que usava sua condição como salvo-conduto.
Raissinier alegava que ao ser capturado pelos nazistas fora testemunha do tratamento dispensado aos seus prisioneiros. E que nunca testemunhara maus tratos a nenhum judeu enquanto esteve preso. Logo, todos os testemunhos que atestavam a matança nos campos de extermínio nazistas seriam falsos. O fato de que foram os soviéticos que primeiro chegaram aos campos e registraram a matança não afetava Raissinier, pois como trotskista ele poderia duvidar dos relatos “stalinistas” do Holocausto. Para os trotiskistas franceses, o sionismo era a consolidação dos planos explicitados em Os Protocolos dos Sábios de Sião, velha fraude produzida pela polícia secreta czarista e apresentada como uma compilação de “planos judaicos de dominação mundial”.
Mas Paul Raissinier não era um caso isolado. Tampouco agia por conta própria. Alguns milhares de quilômetros a Leste da França, mais precisamente em Moscou, nascia a “sionologia”, uma pretensa ciência sócio-política (bem ao gosto marxista) e adotada como política acadêmica oficial na União Soviética, onde as teses negacionistas e conspiratórias eram a base para a produção de farto material anti-Israel.
Em 1963, Trofim K. Kichko (posteriormente agraciado com um diploma pelo Partido Comunista da Ucrânia) publicou pela Academia de Ciências da Ucrânia O Judaísmo sem Maquiagem, livro que parte de um trecho de Os Protocolos dos Sábios de Sião para afirmar que “o expansionismo e a crueldade israelense estão determinados no Talmude”. Em 1969, Yuri Ivanov publicava Cuidado! Sionismo!, um tosco panfleto onde o sionismo era apresentado como “uma ideologia de organizações conectadas para a prática política da burguesia judaica e fundida com as esferas monopolistas nos EUA”. A partir do livro de Ivanov, as obras “sionológicas” foram consideradas leitura obrigatória na formação de quadros políticos e militares da União Soviética e nos países sob sua esfera de influência. Disseminados pelos formandos da Universidade dos Povos Patrice Lumumba, os livros anti-semitas soviéticos formaram gerações de militantes de esquerda que assimilaram e reproduziram a visão expressada pela terceira edição da “Grande Enciclopédia Soviética” sobre o sionismo:
“O Sionismo é um postulado reacionário, chauvinista, racista e anti-comunista. A Organização Sionista Internacional é detentora de grandes fundos financeiros monopolistas que influenciam a opinião pública ocidental capitalista e serve como frente avançada do colonialismo”.
O rompimento entre os soviéticos e o movimento sionista ocorreu ainda antes da independência do Estado de Israel, em 1948. Josef Stálin desejava desencorajar o sionismo com a criação do Birobidjão, uma república soviética onde os judeus deveriam se instalar e permanecer, sempre tutelados sob a sombra da influência de Moscou. Stálin também usou o sionismo e a recém fundação de Israel como pano de fundo de seu último grande expurgo, a “Conspiração dos Médicos”.
Mesmo depois da morte de Stálin, a União Soviética continuou frontalmente anti-Israel, embora o movimento sionista tenha sido majoritariamente formado por militantes socialistas e por pessoas de sólida formação marxista. Após a Guerra dos Seis Dias, em 1967, quando Israel venceu uma coalizão de oito países sob a direta influência política da União Soviética, a sionologia encontrou um território perfeito para se disseminar.
Não é exagero afirmar que o surgimento dos grupos terroristas árabes e a sionologia se retroalimentaram. Yasser Arafat foi treinado pelo serviços secretos do leste europeu e Mahmoud Abbas, ex-miltante do Fattah e atual presidente da Autoridade Palestina, é formado em história pela Escola Oriental de Moscou e autor de um livro negacionista, publicado em árabe sob o patrocínio soviético na década de 1970.
Uma das táticas mais presentes entre os sionologistas para se respaldarem é a utilização de autores judeus. Já nos anos 60 eram escolhidos membros dos partidos comunistas de origem judaica para emprestarem seus nomes às publicações. Essa prática perdurou e gerou o surgimento de intelectuais de esquerda como Noam Chomsky e Norman Finkelstein, que sem serem negacionistas seguem a linha mestra da sionologia de demonização do sionismo e da identidade judaica. Curiosamente, até os mais ferrenhos negacionistas citam Chomsky e Finkelstein como fontes para suas idéias.
O encontro entre negacionistas, comunistas e terroristas que formou a sionologia não impediu que militantes neo-nazistas absorvessem o discurso sionológico. A verdade é que ao se comparar o discurso neo-nazista com o discurso de boa parcela da esquerda não se encontrarão muitas diferenças. O negacionismo e a sionologia fazem parte dos discursos tanto de esquerdistas ilustres, como José Saramago e os já citados Chomsky e Finkelstein, quanto de verdadeiros expoentes da extrema-direita, como Lyndon LaRouche, malgrado seu passado de militante trotskista.
Curiosamente, ultra-direitistas e ultra-esquerdistas colaboram entre si quando o objetivo é o anti-semitismo. Comunistas como Raissinier usam de sua ideologia para separar seu discurso das lembranças nazistas, enquanto os nazistas usam a colaboração de judeus comunistas como salvo-conduto para escaparem da acusação de anti-semitismo.
Seguidores brasileiros de Siegfried Ellwanger mantêm várias páginas eletrônicas onde se encontram links, tanto para sites onde a matança de judeus é exaltada quanto para textos acadêmicos de esquerda onde se pode ver Norman Finkelstein “protestando contra o uso capitalista das indenizações de guerra”. E no meio dessa mixórdia várias “provas” de que não houve nem matança e nem expropriação de bens de judeus. A propósito, Ellwanger nunca se apresentou nem como neo-nazista e nem como esquerdista.
Mas o maior eco da sionologia pode ser visto hoje nas ações e nos discursos do atual líder iraniano, Mahmoud Ahmadinejad, que declarou em dezembro de 2005 que “o Holocausto é um mito”:
“Fabricaram uma lenda sob o nome de ‘massacre dos judeus’, e dão mais importância a isso do que a Deus, à religião e aos profetas”.
Ahmadinejad vem afirmando que “a lenda” é o que manteria uma suposta opressão do Ocidente contra os países islâmicos e com isso vem desafiando a comunidade internacional ao fomentar o terrorismo e insistir em adquirir a tecnologia necessária para a construção de armas de destruição em massa. Fora do mundo islâmico, a linha de frente que apóia as reivindicações de Ahmadinejad tem sido – como sempre – a esquerda, cada vez mais encantada pelo discurso sionologista.
No momento em que vemos o empenho de uma boa parcela da opinião pública mundial em atacar Israel enquanto este país se defende das covardes agressões de grupos terroristas, a emergência do discurso negacionista e sionologista demonstra o sucesso que seus criadores obtiveram e como o Terror se aproveita dele. O fato do negacionismo e da sionologia não serem necessariamente uma criação da extrema-direita não anula o fato de que esta também faz uso deles. Mas a ligação automática que mormente se faz é inexata. A negação do Holocausto é criação dos acadêmicos comunistas e é a esquerda a sua maior useira e vezeira nos dias de hoje.
Notas do Autor:
(1) O Caso Dreyfus em 1894, foi a falsa acusação que o oficial francês de origem judaica Alfred Dreyfus sofreu de ser espião dos alemães. Baseado em documentos forjados por nacionalistas franceses, um tribunal militar condenou Dreyfus ao degredo na Ilha do Diabo. Graças a uma campanha movida pelo escritor Émile Zola, Dreyfus foi novamente julgado e desta vez inocentado. Foi cobrindo o Caso Dreyfus que o jornalista austríaco Theodor Herzl criou o Sionismo.
(2) Joseph Arthur de Gobineau (1816 – 1882), escritor e diplomata francês e autor do Tratado sobre a desigualdade das raças humanas, publicado em 1853 e considerado o primeiro livro de teoria racista.
(3) Édouard Drumont (1844 – 1917), autor de La France Juive (“A França Judia”), em que defendia a expulsão dos judeus do país, baseado na teoria de que estes seriam conspiradores e traidores anti-nacionalistas. Foi um dos principais propagadores de libelos anti-Dreyfus.
De volta a 2026 - Como vemos, o foco do artigo nem era a Sionologia Soviética em si (da qual pretendo falar mais aprofundadamente daqui a pouco), mas o negacionismo do Holocausto, e de como este surgiu não como um instrumento retórico da extrema-direita, mas justamente do campo ideológico oposto. Mas posso afirmar com orgulho que este foi o primeiro texto jornalístico brasileiro — quiçá em língua portuguesa — a tratar de Sionologia Soviética, suas origens, métodos e aplicações, quando nem mesmo no ambiente acadêmico tupiniquim se ouvia falar neste assunto. Curiosamente, enquanto buscava pelo meu texto no Google, encontrei alguns artigos acadêmicos brasileiros que o referenciavam. Em um caso, até fui nominalmente citado em uma tese de dissertação de mestrado em Psicologia Social (estou insuportável desde então). Mas o mais espantoso foi saber que também fui citado (juntamente com o artigo reproduzido acima) pelo não menos espantoso Malleus Holoficarum: O Estatuto Jurídico-Penal da Revisão Histórica na Forma do Jus Puniendi Versus Animus Revidere, nada menos que uma tese de láurea apresentada na USP em 2011 (e que recebeu nota máxima da banca, além de uma indicação ao Prêmio Jovem Jurista do Banco Santander) que — pasmem! — justifica e defende o negacionismo do Holocausto. A tese, que sempre cito em minhas palestras sobre antissemitismo no Brasil, tem a seguinte dedicatória na sua versão em livro: “Dedico esta obra, na qual se efetiva um ato de resistência civil contra a tirania representada pelo Malleus Holoficarum, a todos os inspiradores mártires da Revisão Histórica, cuja luta há de transcender em idealístico e perene legado”. Isso, tenho que admitir, me assustou deveras.
Mas meu foco é a Sionologia Soviética e como ela explica Jessé de Souza. Fato é que os 20 anos seguintes ao meu artigo demonstraram não apenas que ele foi profético quanto aos caminhos que a judeofobia tomaria no Brasil e no mundo, ao citar nomes que até hoje são popularíssimos nas narrativas anti-Israel. Já estavam lá Noam Chomsky (o amigão do peito de Jeffrey Epstein), o sempiterno Norman J. Finkelstein e o eterno presidente da Autoridade Palestina Mahmoud Abbas.
O interessado pelo assunto pode se aprofundar nas obras de Gennadi Kostyrchenko e Arkady Vaksberg (ambos russos e especialistas no antissemitismo de estado comunista desde os tempos stalinistas) Izabella Tabarovsky (pesquisadora russo-americana e a mais focada na Sionologia em si), Robert S. Wistrich e Yohanan Manor, sem deixar de citar o clássico Léon Poliakov (que foi a fonte onde bebi em 2006), todos infelizmente ainda sem tradução para o português. Mas a história da Sionologia Soviética eu já contei há 20 anos e não há necessidade de repeti-la aqui. O que eu quero é salientar que toda aquela retórica nascida nos anos 60 e espalhada laboriosamente por intelectuais de esquerda adestrados pela propaganda soviética, sobreviveu à própria existência da URSS, fincou raízes na Academia e na Mídia, e hoje é o corpo e a alma dos discursos não só da esquerda, mas também das franjas direitistas que vêm se multiplicando sobre a plataforma do antissemitismo, como os groyppers de Nick Fuentes ou a Quarta Teoria Política de Aleksandr Dugin (não por acaso filho de um alto oficial da KGB).
E é aqui que Jessé de Souza volta à baila. Seu discurso é um empilhado de chavões que qualquer pessoa que tenha passado cinco minutos em uma rede social nos últimos anos já leu e ouviu. Suas acusações de que Jeffrey Epstein seria um agente do Mossad ecoam pela web há anos, embora conforme os Epstein Papers venham sendo liberados, surjam cada vez mais evidências de que ele, na verdade, se reportava aos atuais serviços de inteligência russos (sempre esta nação fatal!). O retrato que Jessé faz de Israel e do Sionismo como meras entidades de assassinos de palestinos é o que a propaganda palestina dissemina 24/7. Na verdade, o espanto com as palavras do sociólogo queridinho dos cadernos de cultura dos jornalões da vida só ocorre em quem não está acostumado com essa retórica ou não conhece a sua origem. Definitivamente, não é o caso deste que vos escreve.
Resumo da ópera: a Sionologia Soviética explica tintim por tintim não só a fala de Jessé de Souza, mas até a sua existência como “intelectual”. Compreender como giram as rodas do mecanismo retórico do “antissemitismo de esquerda” — ainda que, na prática, ele tenha se tornado indistinguível dos antissemitismos de quaisquer outras ideologias — é fundamental para quem se proponha a confronta-lo na prática, com argumentos históricos consistentes.
(Todas as imagens nesta publicação foram produzidas pelos departamentos de propaganda da ex-URSS na época da criação da Sionologia e falam por si mesmas quanto ao seu teor judeofóbico.)






Wow, Victor, quanta informaçāo importante, fatos cuja existência eu nem desconfiava. Agradeço, apesar de que foi mais uma gota de ácido na minha gastrite.
Excelente texto, muito esclarecedor.