#Literatura: Um escritor que ressuscita em palavras (4)
Por que mergulhar nos quadros de Tiziano, Rubens, Velázquez, Goya, quando o sincero propósito do livro é o luto pelos seus mortos mais importantes?
Parte 4
A pergunta central sobre Meus mortos, de Diogo Mainardi, desafia o leitor do começo ao fim: por que mergulhar nos quadros de Tiziano, Rubens, Velázquez, Goya, quando o sincero propósito do livro é o luto pelos mortos mais importantes na vida de uma pessoa? De que forma analisar centímetro a centímetro da transparência de um véu sobre o corpo nu de uma linda mulher que viveu há séculos irá aliviar a dor de agora? Não sei, mas tenho hipóteses.
A narrativa sobre a arte e os pintores é feita pelo protagonista, Diogo, em fotos tiradas por seu filho Nico, que também aparece aqui e ali, assim como Tito. Em algumas passagens, através de fotos deixadas por Júlia, “ouvimos” sua voz nas explicações das circunstâncias em que as fotos foram tiradas. Não há emoção nas anotações, mas muito mais do que datas e locais, é o que não está dito que importa. São verdadeiros estilhaços de um espelho, cortam a pele do leitor atento.
A marca jornalística de Diogo Mainardi aflora em sua imensa capacidade de demonstrar a perplexidade, a raiva, o ultraje que sente perante fatos da política, economia, sem contenção, sem se preocupar com o incômodo que irá gerar — ou até propositadamente cutucando onças muito maiores do que ele. Sua coerência e integridade é que impedem que essas onças o devorem. Mas quando se trata do amor, Mainardi é outro. A arte de transformar matéria de amor em porções quânticas de objetividade é algo que ele domina. Em A queda, conta sua maior descoberta: que o amor é seu próprio alimento. Perante o nascimento de Tito, em 2001, para quem a paralisia cerebral representou um desafio para o resto da vida, Mainardi surpreendeu-se com aquilo que todos que já tomamos um soco (ou vários) da vida sabemos, que há pessoas na nossa vida que são mais importantes do que tudo. Nessa descoberta, tudo que antes parecia vital, pelo qual valia brigar e xingar, fica pálido, torna-se um murmúrio, nada mais. A jornada “de 424 passos” é um texto impregnado de considerações sobre arte e História. Em seus personagens reais ele encontra a quem “culpar” pelo erro médico que causou a paralisia cerebral de Tito, já que seu ceticismo não permite explicações sobrenaturais. Porém a atribuição de culpa dá espaço para o que realmente importa, amar e cuidar de um filho que precisa dele todos os dias de sua vida. Contar passos, a fórmula inicialmente adotada para dividir a dor em porções mensuráveis, é abandonada em favor de permitir-se alegrar com os pequenos presentes de cada dia.
Um filho com uma deficiência nos coloca no fundo do poço, mas dali só se pode subir. O filho cresce, aprende, ri, celebra aniversários, e a soma de alegrias dá forças. Mas quando se trata da morte de um pai, uma mãe ou um irmão, ou pior, dos três, de onde virá a escada para sair do poço? Quando comecei a leitura de Meus mortos achei que a imersão em arte, Tiziano, Veneza, eram escolhas objetivas para fugir da dor. Era minha primeira hipótese. Ocupar o afeto com detalhes concretos tira o ferro da brasa do coração. Mas o coração é um bicho teimoso. Ele quer doer. O primeiro capítulo chama-se “A arte de morrer”, e começa com Mainardi deitado sobre um sofá, lendo um livro sobre Rubens, Palmiro enrolado sobre seus pés.
Rubens morreu rodeado por quadros de Tiziano.
Segue-se uma série rápida de fotos em que, pouco a pouco, Palmiro perde a paciência com a elucubração mental de Mainardi, salta do sofá e exige atenção. Mainardi cede e brinca um pouco com ele. Volta ao sofá, e resume:
Quero ter uma morte igual à de Rubens.
O capítulo seguinte, também breve, “Um minuto sobre Rubens”, relata outra vez que Rubens tinha dezenas de quadros de Tiziano pendurados nas paredes de sua casa, que o cercavam no momento de sua morte.
Se quero ter uma morte igual à de Rubens, o primeiro passo é comprar um quadro de Tiziano [ótima ideia, mas um pouco cara]. O segundo passo é morrer de gota [péssima ideia].
É uma brincadeira, claro. Brincar com a morte, especialmente a sua, em vez de a de quem lhe importa naquele momento, é uma forma de fugir da dor. Você acha que está entendendo, e eis que o capítulo seguinte, “A vacina indiana”, traz à cena a família Poonawalla, multimilionários indianos, donos do maior fabricante de vacinas do mundo. Hein? Tá, eles arremataram um Tiziano em um leilão por mais de um milhão de dólares. E? Seguem-se fotos genéricas de vacinas sendo transportadas a um avião, com os dizeres:
Elas desembarcaram no aeroporto de Guarulhos em 22 de janeiro de 2021.
E você ainda perdido, mas no próximo quadrinho vem a chibatada:
Quando a vacina fabricada por Adar Poonawalla finalmente chegou ao Brasil, a covid-19 já havia matado meu pai.
Wham! Que tapa! A foto seguinte mostra seu pai e seu filho em uma banheira, divertindo-se, cheios de vida. A sensação de impotência é mais intensa quando vem a angústia do tempo perdido:
A epidemia matou-o cinco meses antes da vacina.
A questão não é só que a covid-19 levou seu pai, é que em vida eles já não estavam bem. Mais à frente, em “Mensagens do além”, ele volta no tempo. Irá revelar que em fevereiro de 2020, enquanto se falava de algum vírus misterioso que parecia alastrar-se rapidamente mas que nunca chegaria aqui (fosse “aqui” onde quer que você estivesse), Diogo trocou a última mensagem com o pai via whatsapp, uma troca nada agradável por algo bastante prosaico. Nos dias que se seguiram, o pai tentou repetidamente comunicar-se com ele, mas Diogo o ignorou. Quem poderia saber...?
O vírus chegou aqui. Em junho, Mainardi recebeu uma mensagem do filho do segundo casamento de seu pai (meio-irmão, portanto, mas essa concessão nunca é feita), informando-lhe que o pai foi internado em um hospital paulistano, e enviando uma foto do pai intubado, como aquelas que se via na TV dia e noite. Devido à minha idade na época, 65 anos, e uma doença crônica de pulmão, eu me situava bem dentro do grupo de risco. Lia os relatos da falta de sedativos para os pacientes intubados — para mim, o pior pesadelo seria estar intubada mas consciente. Não poder falar. Não poder me movimentar. Estar congelada dentro do meu corpo. Por isso posso imaginar o que se passou na cabeça de Mainardi ao ver aquela foto. Para piorar, o irmão
...dizia que meu pai — nosso pai — estava “querendo morrer” e que delirante, “não parava de falar” a meu respeito — e de como eu “o havia abandonado e tal”.
Não bastasse a culpa pela relação de incompletude entre Diogo e seu pai, somava-se agora a presença da velha senhora e sua foice. Cedeu. Recebeu um link para uma videochamada com seu pai, em coma, enquanto a enfermeira iria segurar o telefone próximo a ele.
Balbuciei pateticamente por quinze minutos. [...] Eu sabia que ele jamais escutaria meu monólogo lacrimoso. Eu sabia também que ele jamais poderia responder-me.
Um pai que, entre outras diferenças, nunca soube ouvir, agora era obrigado; que
sempre respondeu a tudo de maneira desaforada, controvertida, inconsequente, escatológica. A mudez ofendia sua natureza arrebatadora.
Não se usa quatro adjetivos sucessivos para descrever alguém sem uma boa razão. Em outros capítulos, onde Mainardi conta sobre sua mãe e o que ela representou para ele, há flashes sobre o pai, como uma luz estroboscópica que, a cada vez que se acende, ilumina pessoas em atos horríveis. Essas imagens furtivas do pai ganham força e contraste quase sem que o autor permita. Ao final do capítulo sobre o pai, Mainardi confessa:
Revejo velhas fotografias para tentar cancelar da memória sua imagem no leito de morte. Mas ela é incancelável, como costuma ocorrer com imagens particularmente mentirosas.
As velhas fotografias estão na página ao lado. É uma colagem de fotos do pai em alto contraste, destacando os cabelos negros rebeldes mesmo quando penteados, o rosto iluminado, quase sem marcas, os olhos negros de um magnetismo inescapável. E nas fotos onde ele aparece com Diogo e Vini, bem pequenos, uma ternura que só uma genética mediterrânea permite manifestar. O lay-out de colagem, em vez de quadrinhos comportados entre molduras, umas enviesadas cobrindo parte de outras, deixa a sensação de que há mais, muito mais ainda, e que só não se vê todo amor aí por falta de espaço na página. Um eclipse ao contrário, que brevemente esconde o lado escuro do livro.
Para lidar com a perda do pai e do irmão, em vez de Tiziano e a pintura, Mainardi recorre à fotografia, mas para a perda da mãe a fotografia não basta. Aqui, a hipótese de arte como fuga da dor não se aplica, a arte é o próprio canal da dor. Na primeira vez que Diogo conta sobre a mãe, é através de fotos de bons momentos, a morte uma concepção filosófica que ainda não bate à porta, algo para se preparar da forma mais materialista possível. Testamento, suicídio, diários a serem queimados, tudo rigorosamente tratado como um checklist de revisão dos 50.000 km do automóvel. Mas o filho sabe o abismo de breu que o espera:
Minha mãe me mostrou Tiziano e Veneza. Ela me mostrou tudo o que eu sei e me fez igual a ela, reciclando o mesmo molde perfurado.
A busca por Tiziano nas quase 300 páginas do livro não é uma fuga, é a busca pela mãe nas telas e ruas que ela lhe mostrou. Quando discute Rubens, Velázquez, reis e rainhas, Mainardi não está falando com você, está falando com a mãe. Sobre uma foto de Júlia segurando o bebê Diogo,
Rodeado por suas velhas imagens, ressuscito-a o tempo todo em minha mente. [...] E vai continuar assim até o dia em que eu também me transformar em nada. Só existimos um para o outro. Minha morte será a sua morte.
Em “Fotonovela”, muito depois de “se preparar para a morte da mãe” (como se isso fosse possível), ele conta que anos antes de morrer sua mãe preparou-lhe uma pasta com fotos de família.
Eu só soube disso depois de sua morte. Foi o bem mais precioso que herdei dela.
Dela ele herdou a família. Família é o bem mais precioso. Enio, Júlia e Vini morreram sozinhos, afastados uns dos outros e de Diogo havia muito. Quatro astros, mas não uma constelação, era cada um em sua órbita. Se a família Mainardi não existiu como tal em vida, que possa existir no coração de Diogo cada vez que ele olhe essas fotos. Seu olhar é o sopro de vida de que precisa uma pequena felicidade.
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Leia as três primeiras partes deste ensaio.







Ao ler esse 4o. segmento do ensaio separado do resto, me dou conta que talvez não faça sentido para quem não leu o livro. Peço desculpas, mas por outro lado, espero que seja um incentivo às leituras deste livro, que tem tantas camadas que uma leitura só não basta.
Linda leitura.